”13 Reasons Why” e a romantização do suicídio.

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13 Reasons Why trouxe à tona alguns dos assuntos mais polêmicos na sociedade, muito se falou, questionou e se comentou, mas será que a série conseguiu mesmo explorar o assunto? Para entender melhor vamos começar falando sobre as relações sociais e a importância delas. O primeiro passo é relembrar onde as relações se constroem dentro do contexto social: família, que é o primeiro contato e também a ponte com o “mundo exterior”; educação: infantil, fundamental, médio e ensino superior, que acabam se tornando um dos grandes núcleos da interação social.

Há também o trabalho, clubes e demais círculos… entendendo bem como se dão as relações, vamos falar sobre as “exclusões”. As exclusões desses meios acontecem por diversos fatores, e os principais são: status financeiro, aparência física e questão racial; ou seja, quem quer se destoe desses fatores, pode encontrar certa resistência ou ser barrado na inclusão dos meios sociais.

Agora que tomamos ciência sobre as exclusões, conseguimos entender a raiz do bullying, e sim, é tenso, uma boa parte de nós já sofreu, sofre ou conhece alguém que está passando por isso. A desgraça toda é que o bullying existe por (no mínimo) dois motivos chave: autoafirmação e exclusão.

Autoafirmação, dentro desses grupos de inclusão gera aceitação por parte dos outros integrantes de certos círculos sociais, sejam eles em nível de educação, trabalho, clube e etc. Vale lembrar, que embora seja menos assumido e escancarado, esse tipo de situação existe dentro do meio familiar, só que é ferozmente abafado.

As reações às exclusões começam com a segregação, ou seja, formam-se núcleos entre os excluídos e esses indivíduos acabam se identificando e compartilhando os traumas e tristezas causados pelos grupos que aparentemente se encontram num patamar superior ao deles, ou seja, esses subgrupos sociais são constituídos por pessoas que estão em busca de aceitação e inserção de alguma forma,no contexto social, após serem segregados dos grupos “principais”.

Apesar de aparentemente, ou a princípio, solucionar o problema da exclusão, os núcleos formados pelos ‘’excluídos’’ dos grupos principais, podem ter duas reações: aceitação e acolhimento, mas a situação dificilmente para por aí para alguns; o problema se encontra exatamente no nível do trauma, no tipo de personalidade e nível de resiliência (que é a capacidade de adaptar-se ou superar situações de adversidade, traumas, perdas, falhas, etc) compartilhado entre esses indivíduos.

Se alguns apresentarem qualquer nível de dificuldade em adaptar-se ou superar os problemas, muitos dos sentimentos ruins podem e vão gerar uma reação descontrolada afim de que a sensação de injustiça seja sanada, em outras palavras, se os indivíduos partilharem dos mesmos traumas e sentimentos negativos e não houver outros que atenuem a situação, as chances da vingança ser um objetivo chave de identificação a ser compartilhado e de algum ato ser realizado, são enormes e catastróficas; creio que muitos de nós conhecem histórias reais sobre esse tipo de consequência e situação.

Lembrando que também existem os indivíduos que simplesmente não conseguem se conectar verdadeiramente a ninguém, não conseguem estabelecer ligações de confiança, o que acaba agravando a situação traumática, levando a solidão e  agravado possíveis transtornos que levam ao suicídio ou atos desesperados, como ocorreu na série.

Depois desses tópicos que acabamos de acompanhar, chega a parte pesadona, as consequências mais dolorosas da exclusão, do bullying e da segregação: suicídio e vingança, esses dois temas, juntamente com as consequências e a responsabilidade, são as peças chave da série.

Indivíduos que possuem problemas prévios e que acabaram de passar pelo mesmo trauma, ou que foram atacados pelo mesmo grupo e se identificaram, possuem grandes chances de se unir com um objetivo em comum, que em alguns casos funcionam como de cura e superação conjunta. Quando esses indivíduos não possuem gatilhos ou tendências a problemas psicológicos, realmente conseguem seguir suas vidas, ainda que com seus traumas.

Mas há outros que acabaram nem encontrando um núcleo receptivo, ou uma única pessoa que já tenha tendência a distúrbios, optando por seguir o pior objetivo: a busca retaliação; pois não encontraram o apoio devido, ou alguém que realmente percebesse a gravidade do problema, ajudando no incentivo de um acompanhamento profissional.

O exemplo da série foi o de alguém que não conseguiu lidar com a situação, já tinha tendências negativas e buscou uma forma de retaliação, ou nesse caso,  o recado dado pelas fitas e o suicídio imputando a culpa nos demais. Cerca de 13 pessoas foram afetadas diretamente e há os terceiros envolvidos, que também tiveram suas vidas afetadas de uma forma ou de outra.

Acompanhando tudo isso, a gente entende melhor a diferença entre uma pessoa com o psicológico equilibrado e uma pessoa com tendência a se desequilibrar facilmente, sabemos que todos podemos nos machucar, sentir dor, sermos excluídos ou ser motivo de chacota um dia, a diferença é que uns superam e outros possuem problemas prévios que acabam agravados por essas situações negativas e terminam num ato desesperado para o livramento da dor.

Fica nessa reflexão o real sentido da empatia, será mesmo que prestamos atenção em como as pessoas ao nosso redor lidam com a dor? Será que subestimamos a dor alheia? Como podemos dar uma contribuição melhor para a sociedade diante desses casos, se estivermos focamos apenas em nós mesmos?

Porque de verdade, diante de todos esses questionamentos abertos, de tantos e tantos casos dramáticos, cabe a todos nós, termos responsabilidade. Pegando esse gancho da responsabilidade, a série comete um deslize: dar um glamour a consequência, colocando o suicídio como responsabilidade única e uma vingança à terceiros, como se além dos outros, a pessoa não precisasse ter responsabilidade e aceitação da falha, da busca por regeneração e tratamento.

Não houve uma finalização adequada, ficou tudo em aberto, deixando espaço para se pensar no ato dos envolvidos, afinal, se você negar até o fim sua parcela de culpa, será que as coisas não ficam bem e todos acabam esquecendo? Eles foram mesmo responsabilizados? Quais seriam as consequências para eles? Quantos de nós conseguem imaginar a punição devida? Ou quantos ficaram apenas impressionados com a vingança e a cena do suicídio e se esqueceram da responsabilidade entre todos os envolvidos? Faltou um fechamento que nos fizesse pensar na contribuição real de cada indivíduo. E o mais dolorido, uma cena sobre um ato brutal, retratada de maneira pacífica, simplista e romantizada, como uma bela dama na água se despedindo sem tantos percalços em sua decisão, e ainda com toques que seguem como sugestão da maneira correta de se cometer um suicídio, que termina não apenas por chocar as pessoas que a assistem, mas que também pode inspirar uma pessoa já abalada. Tomara que a vindoura segunda temporada preencha essas lacunas de uma forma socialmente relevante.

Nisso nós podemos concluir que falta empatia e que falta responsabilidade, não só ali na tela retratando uma cena chocante de maneira bela, mas que também não é legal ver o sofrimento alheio e se retirar, pois quantos de nós simplesmente ignoram o sofrimento dos outros; pode ser seu melhor amigo ou seu parente, pode ser alguém que passa despercebido por você algumas vezes num corredor de clube, igreja ou escola, mas a gente só sente o peso depois da tragédia acontecer, porém, passou da hora da gente mudar isso e levar a sério, porque existem “Hannah Bakers” passando por nós todos os dias… e na vida real a coisa é beeeem diferente.

 

Liliane Stoianov
Colaborador | Também do autor.

Trintona, psicolouca, pedagoga, ama viajar, tocar piano, compartilhar minha paixão que é o cinema, os devaneios e o que mais vier à cabeça durante as tramas e películas que assisto.

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