3% (1ª Temporada)

Browse By

“A primeira série brasileira da Netflix”. Essa foi a frase que serviu para aquecer os usuários até o dia 25 de novembro. E quando finalmente chega, “3%” é um grito para reconhecimento tão alto que quase se perde, mas com um foco até o fim, atuações dignas e investimento no necessário, a famigerada primeira série brasileira da Netflix consegue funcionar como uma boa ficção-científica dramática que sabe falar sobre a sociedade de uma forma fantasiosa e futurística e ser brasileira sem ser brega ou clichê, mas que precisa de muito para se segurar.

A história fala sobre um mundo onde os recursos são escassos e 97% da população vive na extrema miséria, aos 20 anos de idade os jovens podem participar de um chamado “Processo” que irá selecionar aqueles que são dignos de viver no Maralto, o refúgio supremo e, com todas as regalias que quiserem, sem suas famílias, mas em um mundo perfeito e acima de tudo justo.

A partir da primeira cena o que surpreende e continua ao decorrer em “3%” é o visual que esta traz. O uso maior de cores primárias e um visual exagerado fantástico para uns e a plenitude do branco, preto e cinza para outros estabelece bem a diferença entre os personagens e incita uma ideia de ousadia que prevalece em outros aspectos de forma melhor.

Em momento algum a série é covarde. Existe um abuso com a violência, sangue e crueldade entre os personagens que dão um ponto de confiança. A premissa mesmo sem ser nem um pouco original consegue não deixar o espectador desinteressado e os acontecimentos rápidos e precisos ajudam a balancear calma com euforia. O formato de oito episódios é o trunfo de “3%”. Não parece que sobra história para ser contada em treze, muito menos 24 horas. A forma compacta da contação de história obriga que os personagens se movimentem e coisas aconteçam sem cair em momentos de contemplação desnecessários ou diálogos sem motivo.

O melhor da série são os personagens. Não necessariamente os atores, que parecem se desenvolver melhor no decorrer da série, mas os devidos parabéns devem ser dados à João Miguel e Mel Fronckowiak (Ezequiel e Julia) que juntos proporcionam o melhor episódio de “3%”. A personagem de Mel é o balanceamento perfeito entre sensualidade e a ideia de perfeição imperfeita, já Ezequiel é afetado na medida para dar um peso a mais ao personagem que conta com um desenvolvimento mais amplo. Bianca Comparato convence como futura heroína, mas tem o estofo de quem ainda precisa aprender muito, Michel Gomes está bem com seu drama pessoal, mas não ao ponto de gerar empatia por muito tempo, Rodolfo Valente é o típico personagem errado quem se ajusta com o tempo, Rafael Lozano proporciona um sentimento interessante de ódio e apreciação, porém que não passa de um episódio e Vaneza Oliveira é a que acaba sendo a mais bem desenvolvida.

Mas com personagens tão bons – alguns mal aproveitados – o problema vem quando se tenta extrair o que ficou ao final de “3%”. Como a maioria dos episódios são baseados em testes poderiam se trabalhar vários aspectos da consciência, capacidade e estado social do ser humano, mas a grande lição se resume a “justiça e injustiça” que depois da terceira vez não tem mais tanto impacto.

Cada um faz o que precisa para sobreviver e ter direito a uma boa vida. Se “você é o criador do seu próprio mérito” então a primeira série brasileira da Netflix precisa se esforçar um pouco mais em seu segundo ano. Aqui tivemos uma distopia que tenta se sustentar do conceito de injustiça sem comprovar muito bem a maldade de seu inimigo, mas se na próxima vez o conceito de “Jogos Vorazes” com a estética de “Star Trek” não se aproveitar melhor de seu potencial as séries nacionais se resumirão a mini novelas.

3 estrelas

Vinícius Soares
Colaborador | Também do autor.

Cinéfilo desde que descobriu o que significava cinema e o valor da Sétima Arte, viciado em séries em um nível saudável, desenha ocasionalmente e escreve mais do que come. Sonha em ser roteirista e jornalista e com certeza deseja ser um pouco mais alto

>