“A Forma da Água” é uma estranha força da natureza.

Atenção: o último parágrafo deste texto pode conter spoilers.

 

Existe uma citação famosa em que Bruce Lee diz: “seja água, meu caro”. No discurso ao redor desse trecho, ele incita seu interlocutor a assumir a volubilidade da água, que é capaz de se adaptar a qualquer meio sem perder suas características essenciais. Ela tende a preencher os espaços do jeito que der e adota temporariamente o formato ao seu redor, mas com força o bastante também pode ser devastadora. Ser como a água, de acordo com Lee, é o mesmo que saber a hora de aceitar as coisas como são e a hora de reivindicar mudança, e esse é exatamente um dos temas centrais abordados por Guillermo del Toro em seu novo longa, que já se consagrou em diversas premiações e acaba de receber 13 indicações ao Oscar 2018.

Estamos na década de 1950. Em um laboratório secreto controlado pelo exército, a jovem Elisa Esposito (Sally Hawkins) está sempre acompanhada da amiga e cúmplice Zelda Fuller (Octavia Spencer) enquanto elas fazem a faxina no turno da noite. Elisa é muda e Zelda fala pelos cotovelos; elas se complementam e se dão muito bem. Elisa leva uma vida regrada, com uma rotina diária: acorda à noite, se masturba na banheira até um timer avisar que seus ovos estão prontos no fogão, lustra seus sapatos, arranca a folhinha do calendário e, antes de ir trabalhar, dá uma passada no apartamento do vizinho, também amigo e cúmplice, Giles (Richard Jenkins). Essa rotina começa a ser abalada quando Richard Strickland (Michael Shannon) chega ao laboratório trazendo uma cápsula cheia de água onde está preso um anfíbio humanoide que foi capturado por ele e vai ser estudado pelo cientista dr. Robert Hoffstetler (Michael Stuhlbarg).

Elisa se sente imediatamente atraída pela cápsula e pela criatura, com quem aos poucos estabelece comunicação e uma relação cada vez mais forte. Ela leva ovos cozidos e uma vitrola, mostra sua coleção de vinis e até ensina a linguagem de sinais. Em pouco tempo, esses encontros viram parte da rotina. Pode parecer chão escorregadio, mas essa relação dá passos firmes e sabe onde pisa. A atração que Elisa sente não é gratuita, já que sua intimidade com a água se mostra forte desde o começo: ela sonha com água, se masturba na água, trabalha com água e o ovo que come todo dia poderia ser frito ou mexido, mas é cozido, ou seja, mergulhado na água. Giles também nos dá a dica logo na abertura, quando ela acorda em meio ao som das sirenes de viaturas lá fora e, ao vê-la, ele pergunta: “as sirenes te acordaram?”. A palavra em inglês é “siren”, que além de “sirene” também significa “sereia” e faz alusão ao canto sedutor desses seres mitológicos. Elisa vai ouvir o chamado das águas e sua rotina vai ser balançada, mas o ser em questão é outro.

A jornada insólita da protagonista se dá em um universo que equilibra realismo e fantasia. A começar pela trilha sonora, que mescla músicas da época retratada com uma trilha original que investe em um tom onírico ao longo do filme todo. O design de produção e o figurino também contribuem pra isso, colocando na tela uma quantidade quase artificial da cor verde, que toma conta de quase todas as cenas. Além disso, a atuação cuidadosa de Sally Hawkins enfatiza o quanto Elisa é diferente dos outros personagens. Enquanto todos têm performances bem mais naturalistas, Hawkins, encorajada pelo diretor, baseou sua composição nos trejeitos mais expressivos do cinema mudo pra compensar sua falta de voz. Todos esses detalhes funcionam em uma harmonia precisa e muito coesa e fazem o espectador mergulhar fundo nesse universo.

Mas a diferença não recai apenas sobre Elisa. Sua mudez, a sexualidade de Giles, a cor da pele de Zelda e o segredo guardado por um outro personagem fazem deles a água que está se adaptando ao ambiente e que logo se transformará em maremoto. A chegada de um ser ainda mais diferente vai fazê-los abrir mão da calmaria. Esses personagens se deparam o tempo todo com preconceitos passivo-agressivos e opressões abertamente hostis, e não vai demorar até que se cansem. Seus antagonistas são como pedras, que se impõem ao ambiente sem a menor chance de adaptação. O maior obstáculo da trama é a rigidez que o mundo quer impor aos personagens, o molde que quer definir a forma que eles devem ter.

Se há um aspecto negativo a se apontar em A Forma da Água, ele está no primeiro ato do roteiro, que parece querer chegar logo ao que interessa e se apressa ao mostrar a evolução da relação de Elisa com a criatura. Aqueles passos firmes são um tanto rápidos. Enquanto as motivações são claras, a situação toda é muito inusitada e merecia uma introdução mais robusta que fizesse essa relação parecer inevitável. Tentando não se alongar, o roteiro parece contar com a boa vontade do espectador em vez de convencê-lo daquela possibilidade. Por outro lado, a força narrativa de todo o resto acaba se sobressaindo e quase ofusca a pressa do começo, e o roteiro também se sustenta bem no modo como amarra diversos detalhes ao longo da projeção: se alguma coisa é enfatizada, ela vai ser relevante pra história em algum momento, o que sempre se apresenta de modo orgânico e muito homogêneo.

Contando com a ajuda incondicional de seus amigos, que fazem as vezes de um Sansão e uma Dalila às avessas, Elisa encontra a força que talvez achasse que não tinha. Ela é pequena, não fala e parece recatada e tímida, mas guarda dentro de si toda aquela força da natureza. O peso de suas motivações é apresentado em uma cena inspirada que transforma um diálogo expositivo em um jogo de cena comovente em que ela eleva sua voz através das cordas vocais de Giles, e é esse peso que vai levar a enxurrada adiante até desaguar em um desfecho que é poesia pura. O que fica no final é a sensação de que quando a represa se abre e a água começa a correr não adianta tentar pegar com a mão porque ela escorre pelos dedos.

Lucas Mendes Kater

Tradutor, revisor e redator, ocasionalmente se infiltra no audiovisual pra tirar um troco. Formado em Letras e pós-graduando em Escrita Criativa, com ênfase em ficção pra ver se aprende a mentir. Também diz que é músico, mas só toca uns rock feio, sujo e errado.

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