“Assassinato no Expresso do Oriente” tem um clima delicioso e uma trama envolvente.

 

Quando eu tinha 14 anos de idade, adorava matar aula na biblioteca da escola. Sempre fui fã dessa coisa de “quem matou?” e Agatha Christie era uma autora que me encantava, mesmo tendo até então, lido apenas um livro seu: O Caso dos Dez Negrinhos (cujo título atual é E Não Sobrou Nenhum…). Devorei este aí em 6 horas e me senti o fodão por ter conseguido essa vitória, mas isso não era suficiente, eu precisava de mais mistério, mais investigação e saciar a vontade louca de suspense rápido que invadia o meu peito.

Foram nessas escapadinhas inocentes que descobri uma coisa que mudou demais a minha iniciação no mundo da literatura: as prateleiras estavam LOTADAS de livros da Dama do Crime. Perguntei para a Dona Maria de Lourdes qual era o livro mais famoso da moça (já que Google era luxo naquela época) e ela não só citou, como pegou em suas mãos cansadas um livro pequenininho, mas com um título que fez o meu coração sorrir: Assassinato no Expresso do Oriente. Eu mal podia imaginar que seria arrebatado por uma das conclusões mais surpreendentes e inesperadas que já vi e essa delícia não só entrou para a minha lista de favoritos, como até hoje me desperta lembranças de uma época muito gostosa da minha vida.

Na trama acompanhamos o detetive favorito de Agatha: Hercule Poirot. Ele está em uma viagem tranquila a bordo do luxuoso Expresso do Oriente e tudo estava bem, até que um dos passageiros é brutalmente assassinado e muita gente com motivação de sobra para tal ato também está neste mesmo local. É nesta hora que a investigação de Hercule começa e, pouco a pouco, vamos descobrindo quem são eles, qual a motivação para o crime e principalmente a maior e mais intrigante questão: QUEM MATOU?

Apesar de já ter um filme lançado em 1974, é sempre bom reviver o clima delicioso que Agatha Christie domina. Encabeçado por um baita elenco, a nova adaptação de Assassinato no Expresso do Oriente vem com a promessa de resgatar esse sub gênero tão gostoso e mostrar qual tipo de histórias a Palmirinha do Crime gosta de nos contar. Infelizmente, a transição das páginas para as telas não deve agradar a todos que não conhecem o estilo da moça, já que estamos falando de um filme lento, sem grandes momentos de ação e mais do que tudo, que exige que o espectador entre na trama para aproveitá-la da maneira adequada.

Não adianta esperar sangue e caos, a pegada aqui é mais cabeça e os fãs desse tipo de filme certamente não sairão desapontados, afinal, também somos presenteados com grandes atuações e uma fotografia maravilhosa que consegue nos transportar para a época no qual a situação se passa. Kenneth Branagh (que também dirige o filme) faz um Hercule Poirot bem bacana, cheio de manias e dono de uma inteligência que nos encanta e deixa ansioso para a grande conclusão do caso; ele é realmente um personagem bem carismático e peculiar.

No quesito cinemão, Assassinato no Expresso do Oriente não deixa a desejar, porém, por ser muito fã das obras da autora, senti falta de certas características que fazem seus livros incomparáveis. Por exemplo, o suspense de suas obras são chiques e carregam um ar de soberba, luxúria e ganância que chegam a ser palpáveis, coisa que para mim ficou faltando aqui, é tudo muito simples se comparado com as descrições que ela faz tanto das locações quanto de seus personagens.

Isso sem falar que em suas histórias, os suspeitos exalam arrogância, deboche e até mesmo um certo histerismo, detalhes que intensificam ainda mais a curiosidade e a tensão, despertando o nosso lado detetive e nos colocando junto no meio da coisa toda, que é claro, culmina sempre em um  final arrebatador e clássico, com máscaras caindo e dedos sendo apontados. A visão de Branagh deixou de lado essas características e confesso, me deixou um pouquinho desapontado.

No mais, Assassinato no Expresso do Oriente é um filme bem bacana e apresenta Agatha Christie para uma nova geração de um forma bem moderninha. Podia ter mais de suas características marcantes? Podia sim, mas isso não o faz desmerecedor da sua atenção. O elenco está maravilhoso, a trama é bem montada, o final surpreende MUITO e não tenho dúvidas que seja uma boa escolha para um sabadão a noite. Não espere um suspense lotado de tensão ou violência gráfica; aproveitando da maneira certa, você passará um momento bem agradável na companhia da Viúva, do Mordomo, da Condessa, do Professor… um deles é culpado e toda essa curiosidade em torno da identidade do assassino é um presentão para quem procura um suspense diferente e mais do que tudo: envolvente.

 

Victor Piacenti

Um cara fanático por Stephen King, que sente um prazer imenso ao ver uma cidade sendo destruída na tela do cinema. Além de ser sagitariano, não sabe andar de bicicleta, é viciado em coxinha e acredita (até demais!) em ETs.