“Blade Runner 2049” investe pesado na nossa imersão.

Parece que os anos 80 voltaram com tudo. O ciclo natural do cinema volta a essa fase presente em séries, como Stranger Things, no reboot de IT e no vindouro Thor: Ragnarok. Blade Runner 2049, é mais um exemplo dessa tendência oitentista que não poderia chegar em hora melhor.

Antes de assistir a nova versão, revisitei o original, pois não o assistia há muito tempo e… caramba, como o filme envelheceu bem! Diferente de filmes como Star Wars e O Planeta dos Macacos, os efeitos não ficaram datados, e nem parece um filme fora de sua época. Mas, o que mais me chamou a atenção foi perceber o poder que o filme tem em criar uma atmosfera. Aquele mundo enorme e claustrofóbico ao mesmo tempo. Arranha-Céus monstruosos que quase rasgam as nuvens, sujeira e podridão brigando por espaço contra enormes propagandas holográficas. É algo realmente lindo de se ver e não é à toa que é a principal referência para futuros distópicos.

Volto então para a nova versão, Blade Runner 2049. Assim como o original, o filme se dispõe muito mais a contemplação humana ao invés do espetáculo com “blasters lasers “ (não deixando de lado essa parte, claro), e busca discutir a relação homem-máquina e a criação da vida sintética. Originalmente, Blade Runner – O Caçador de Androides foi inspirado pelo livro “Androides sonham com ovelhas elétricas?” e questionava até onde Humanos e Replicantes (os androides do título) se distinguiam, gerando a polêmica questão se Deckard (personagem de Harrison Ford) era ou não um Replicante; algo que se confirmou em uma das posteriores revisões do filme, gerando inúmeras discussões entre os fãs.

Nesse novo filme, sabemos desde o início que K (personagem de Ryan Gosling) é um replicante e caçador de recompensas. Conforme a investigação que se encontra envolvido progride, ele começa a duvidar de suas origens ao perceber que um lembrança sua, que julgava ser implantada, havia acontecido de verdade, fazendo o caminho oposto de Deckard.

A direção de Denis Villeneuve (A Chegada) é introspectiva sem mastigar para o público a trama, nem as viradas.  As longas tomadas silenciosas servem não só para refletir no mistério mas para se envolver com aquela realidade. Como todo filme Noir que se preze, você sente a melancolia e falta de esperança daquele universo. Talvez outro diretor não tivesse a habilidade para segurar o ritmo e prender a atenção.

Ryan Gosling, consegue o trunfo de expressar o mínimo de sentimento necessário sem alterar a frieza adotada pelo personagem. Por sinal, o elenco do filme é excelente, Dave Bautista deixa claro que veio pra ficar e Guardiões da Galáxia foi só um gostinho do seu talento. Robin Wright adotando um novo tipo de mulher durona, Jared Leto adotando um novo tipo de homem Excêntrico (isso não foi uma crítica, foi um elogio), Ana de Armas cria um inusitado par romântico que me lembrou o ótimo “HER” e que funciona perfeitamente para o contexto da história, sem se tornar uma normalidade de roteiro. Por fim, claro, Harrison Ford, que depois de reviver Indiana Jones e Han Solo, completa a tríplice sagrada de sua carreira com Rick Deckard. É impressionante o carisma, charme e vitalidade que ele apresenta depois de tantos anos, e assim como Han e Indiana, ainda estamos ligados emocionalmente a esse personagem.


Blade Runner 2049 discute por fim, se nós somos frutos de nossas lembranças, sendo elas verdadeiras ou não. Como disse no início deste texto, é um filme contemplativo que investe pesado no atmosfera para a imersão total nesse universo. Um filme longo, mas justificável que pode ser chamado desde já de um novo clássico.

 

Marcel Melfi

Designer pra ganhar dinheiro e artista pra ser feliz. Apaixonado por filmes, quadrinhos e filmes de quadrinhos. Autor da Trilogia Odisseia Naftalina.

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