Cenários que parecem ter vida própria.

Browse By

Você já assistiu um filme e ficou atraído pelo cenário? Uma casa, um hotel, uma floresta, um navio ou até mesmo um cenário minimalista é a primeira coisa que vem na sua mente quando pensa em um determinado filme?

É disso que vamos falar hoje, aqueles cenários que viraram ícones do cinema e são sempre lembrados quando se falam do filme. Às vezes o cenário é um personagem em si. Ou uma extensão do personagem, da mente, do psicológico ou da situação que a trama se passa. A questão estética é parte da história, a maneira e o ambiente onde vivemos e onde estamos diz muito sobre nós e isso não é diferente nos filmes.

Vamos começar? 🙂

Localizado no alto da colina logo atrás ao Motel Bates, o casarão do filme Psicose também é um personagem para a trama do filme. A casa sempre ali ao fundo, pouco distante do negócio da família, quietinha e silenciosa… Enquanto dentro dela está acontecendo os maiores babados, confusões e gritarias. É um lugar que não tem paz, é uma casa já presenciou muitos problemas familiares, psicológicos e guardou os maiores segredos da família Bates, principalmente de Norman.

A casa é um símbolo bem forte dos acontecimentos e até mesmo uma representação da psicose de Norman… A imagem bem icônica do filme e que fica em nossa mente, é aquela do casarão sempre cercado de névoa isolado no topo da colina, não é mesmo? Muito dessa casa vem de uma grande metáfora freudiana da mente onde cada um dos três andares da casa representa o id, o ego e o superego. Nessa visão psicanalítica do filme, a mãe de Norman (que seria sua psicose) fica no andar mais alto da casa, o que significa que, a mãe teria o controle sobre a parte consciente de Norman, mas quando ele é ameaçado ele esconde sua mãe no porão, a parte mais baixa da casa, sua psicose assim é escondida nas profundezas de sua mente e seu lado irracional tem de ser controlado para sua própria salvação.

Uma curiosidade legal sobre o cenário de Psicose é que a casa do filme, projetada pelo Diretor de Arte Joseph Hurley e Robert Clathworthy, foi vagamente baseada em uma pintura de Edward Hopper chamada “By The Railroad”. Ninguém imaginou que se tornaria um ícone, se fixaria no imaginário coletivo do público e apareceria em inúmeros filmes (incluindo duas das sequências de Psicose), programas de televisão e até em anúncios de publicidade.

Floresta por si só já é uma metáfora da curiosidade e o medo de enfrentar o desconhecido, mas se você quer fugir de praia e se aventurar pelo campo entrando em uma floresta aqui vai uma dica: Não brinque entre as árvores ou você pode encontrar seu colega com o coração arrancado! Ou, pior ainda, de pé, no canto de um porão em uma cabana muito velha.

Em qualquer lugar, o desconhecido é assustador e a Bruxa de Blair é uma das incógnitas mais aterrorizantes da história do horror. Nós nunca conseguimos vê-la, mesmo assim ela ainda é aterrorizante, a floresta onde ela habita é espantosa, deixando uma impressão bem duradoura sobre o ambiente do filme no nosso imaginário.

Todo adorador de filmes de terror com certeza já viu ou ouviu falar na casa de Amityville. Um local marcado por uma tragédia, tragédia essa que serviu de inspiração para o mundo do cinema.

O ano era 1974, o local é uma mansão que fica na Ocean Avenue, número 112 no pacato vilarejo de Amityville em Nova York nos Estados Unidos. Uma família composta por 7 pessoas vivem nessa enorme mansão de três andares, mais um porão. O endereço já caiu na rede há tempos, por isso o local é quase que um ponto turístico obrigatório para fãs do cinema de terror que estão na cidade. Foi nesta casa em que encontraram seis assassinatos brutais nos anos 70 que, segundo o dono da época, estava assombrada. Os donos atuais já reclamaram que no Halloween a brincadeira rola solta por lá.

E foi a partir dessa história que o escritor Jay Anson escreveu um pequeno livro sobre as experiências sobrenaturais e bizarras que a família Lutz viveu dentro da casa no decorrer de seus 30 dias de estadia nela e após o assassinato da família Defeo. A história chama muita atenção, se tornou um best seller e até uma franquia de filmes. O filme serviu de inspiração para muitos outros filmes que viriam a seguir com a mesma ideia de casa mal assombrada… Um grupo de pessoas vivendo horrores numa casa que eles, por algum motivo, acabaram parando lá. E mais do que isso, “Terror em Amityville” de 1979 foi o primeiro de uma saga com mais de 10 filmes. No remake de 2005 o cenário é melhor explorado e conhecemos um pouco mais da casa, enquanto no de 79 a direção optou por usar planos mais psicológicos e fechados onde a tensão está nas atuações. Mas uma frase icônica nessa verão é “as casas não tem memória”. Bem, essa parece ter…

A medida que a história vai avançando a casa de Amityville parece estar viva. O cenário familiar é denso e começa a apresentar um aspecto claustrofóbico e sufocante antes mesmo das primeiras interferências da entidade demoníaca. Filmes de terror nunca pecam em cenário para perturbar nosso imaginário.

O TOTEM DA OUSADIA HUMANA, O ORGULHO DA ENGENHARIA NÁUTICA, O COLOSSO DE 269 METROS DE COMPRIMENTO E 46 MIL TONELADAS, A OBRA-PRIMA DE 7,5 MILHÕES DE DÓLARES, EU VOS APRESENTO, SENHORAS E SENHORES… O RMS TITANIC!

Em 15 de abril de 1912, o RMS Titanic afundou algumas horas depois de colidir com um gigantesco iceberg, o navio afundou e levou consigo a vida de mais de 1.500 pessoas nas águas gélidas do Atlântico Norte. Muitos filmes foram feitos desde então para contar a história do navio “impossível de naufragar” que não conseguiu sequer concluir a sua viagem inaugural… fuén.

Mas o extremamente perfeccionista, James Cameron criou um monstro… A representação do navio é incrivelmente fiel. O deslumbre do navio nas primeiras cenas é algo que tira o fôlego. Gastou tanto para recriar com exatidão o Titanic que o filme ficou mais caro que o próprio navio. Estourou prazos de produção, brigou com o estúdio para que o filme tivesse as inacreditáveis 3 horas e 14 minutos de duração, foi o responsável pelo longa-metragem mais caro já feito até então. Antes do lançamento, poucos acreditavam no sucesso… No máximo seria possível amenizar o prejuízo. Mas as bilheterias mostraram o contrário, não é mesmo, mores?

É uma marca na nossa mente e coração quando lembramos dessa tragédia, nos leva diretamente para aquele cenário, faz a gente se sentir a bordo do navio vivendo aquela história. Conhecemos cada canto da embarcação, da primeira à terceira classe, da cozinha à sala das máquinas e até a “garagem”. E o cenário é um personagem muito forte do filme, o tempo todo é tido como ele jamais afundaria, o tempo todo é falado em curiosidades e grandes marcos na história teria com a confecção daquele navio. O fator emocional foi muito intenso, as cenas do naufrágio tinham que ser reais o suficiente e fez com que o filme tivesse uma verdade muito grande, em cada gesto e cada atuação. Titanic nos leva de volta para aquele tempo e para aquela tragédia, grandioso em toda a recriação do navio, num trabalho cinematográfico impressionante até mesmo nos dias de hoje… Quase duas décadas depois, ainda impressiona por esse espetacular trabalho de cenografia e direção de arte. Seja na recriação do verdadeiro Titanic ou quando o navio enfim naufraga, a riqueza e o requinte dos detalhes chama a atenção.

A complexidade do naufrágio, exibido quase em tempo real em relação ao evento verídico, demonstra não apenas a excelência técnica mas também a habilidade e visão pretensiosa de James Cameron, no sentido de cobrir cada passo da tragédia como uma história envolvendo e se estabelecer como grande realizador de mega produções marcantes, pois até hoje, ainda causa fascínio em muitos e ódio em muitos outros, mas ainda assim, um filme já cravado na história do cinema! Para tanto, o também roteirista foi beber de uma fonte vinda de quatro séculos antes: Romeu e Julieta.

Apesar da ausência de cenário, o pouco cenário presente em Dogville diz muito. O cenário é minimalista, mas interage o tempo todo com o texto não-verbal do filme. A ausência de paredes traz desconforto, a hipocrisia é escancarada onde o pior cego é aquele que não quer ver, onde as coisas acontecem bem embaixo do nariz dos personagens, literalmente.

O filme todo remete ao desconforto de estar sentado observando, sem o “”””subterfúgio”””””” de um ambiente elaborado, o comportamento odioso de pessoas que, descompromissadas de qualquer noção de respeito e empatia, dão vazão ao seu lado mais obscuro, sem medo e sem amanhã. E são só pessoas mesmo, sequer ganham cores de monstros apesar de seus comportamentos serem monstruosos.

Mudando de nome e lugar, poderia ser qualquer pessoa próxima ou até nós mesmos. Dogville com essa escolha de “cenário” me faz pensar no verbo “constranger(-se)” e na necessidade pessoal e intransferível de controlar as nossas imoralidades de cada dia. Quando falhamos, e estamos rodeados de pessoas igualmente falhas, é isso que acontece. A ausência de cenário em Dogville além de fazer a gente concentrar toda a atenção para a trama e as atuações, é uma grande experiência cinematográfica.


Outro grande ícone do cinema em termos de cenário é o hotel do filme O Iluminado, impossível você falar desse filme sem se lembrar da cena em que Andy anda pelo corredor do hotel em seu triciclo. Impossível não lembrar da atmosfera insana que paira sempre aquele lugar. E duvido que você nunca se hospedou em um hotel e não ficou com medo de caminhar pelos corredores sem pensar que a qualquer momento poderia aparecer duas gêmeas de vestidinho azul no final dele, ham?!

Não faltam qualidades aos luxuosos apartamentos e salões do Hotel Overlook, nas montanhas do Colorado. Ideal para quem quer privacidade e isoladamente, foi frequentado por grandes artistas e funciona anualmente de maio até outubro, uma vez que o rígido inverno americano torna as estradas de acesso a ele, intransitáveis nos outros meses.

Aberto de 1909, o hotel viu sua grandiosidade decair lá pelos anos 1970 e ganhou a reputação de ser assombrado quando Stephen King se hospedou com sua família em 1974. Os membros da família King eram os únicos hóspedes do hotel, que se preparava para fechar para a temporada de inverno… O autor acordou de um pesadelo em que seu filho de três anos era perseguido no corredor do hotel por um homem com um machado. Se levantou da cama, e para  se acalmar, admirando a vista das montanhas rochosas, teve a ideia para escrever o livro. Ficou hospedado no quarto 217, onde tudo acontece também no livro, porém no filme, o número foi mudado para 237, que não existe no hotel, pois o proprietário temia que o quarto nunca mais fosse alugado. Na verdade o quarto 217 foi o mais requisitado por celebridades desde o lançamento do livro, o que reviveu o interesse do público na hospedaria e solidificou a sua fama como antro de atividade paranormal.

Para mim, uma das maiores diferenças entre o filme de Kubrick e o livro de Stephen King está nisso, o papel que é desempenhado pelo Hotel Overlook na trama. Enquanto na história original o hotel é literalmente um personagem, sempre demonstrando indícios de que teria uma espécie de vida própria, no filme ele serve mais à trama como cenário, mas um que desempenha um função muito importante.

Para exemplificar melhor isso, vou citar o fato de que no livro diz que o Overlook ter sido construído sobre um antigo local de enterro indígena como se fosse a causa de suas particularidades “mal-assombradas”, enquanto no filme Stuart Ullman apenas comenta isso de passagem e já prossegue em sua fala.

A cena seguinte já mostra a habilidade de Kubrick em criar momentos de mais pura tensão utilizando elementos muito simples. Com o enquadramento de câmera perfeito, Kubrick consegue tornar perturbador algo corriqueiro em muitos outros filmes: alguém falando sozinho na frente do espelho. Com uma câmera focada na porta do banheiro e que se movimenta lentamente, temos a impressão de estar nos olhos de um intruso, alguém que entrou na casa dos Torrance e está espionando Danny. O banheiro é um cenário que representa em filmes o nível máximo de privacidade que uma pessoa pode ter. Assim, qualquer coisa que pareça perturbar esse momento gera automaticamente uma certa tensão.

O filme nos mostra um “tour” pelo hotel com os personagens transitando sobre ele, esse “tour” é crucial para o desenrolar do clímax porque ao mostrar praticamente todos os cômodos no começo do filme, Kubrick estabelece em nossa mente uma certa “familiaridade” com o espaço. E isso de certa forma nos tranquiliza e nos faz “baixar a guarda”, o que aumenta a tensão quando as coisas começam a dar errado nesses mesmos cenários e você só quer fugir dali.

Só para estabelecer uma comparação, um dos únicos cenários importantes no filme que não são mostrados logo no começo é o próprio quarto 237, provavelmente para mantê-lo envolto em um mistério que é criado a partir da conversa entre Danny e Dick Halloran. A grandiosidade dos ambientes do hotel aumenta ainda mais a sensação de isolamento e solidão da família, além de usar cores e desenhos geométricos que causam uma forte hipnotização na gente, cada objeto, cor e detalhe no cenário são pensando para aumentar a angústia em que está assistindo. Esse é um filme que do elenco à fotografia, dos cenários aos figurinos, tudo está devidamente encaixado, como em uma moldura de um quadro de terror, preso no inconsciente de algum pesadelo noturno.

Curiosidade: O Stanley Hotel, localizado em Estes Park, no Colorado, até lançou um projeto para construir uma instalação que vai abrigar um museu temático de terror, um auditório, exposições itinerantes e um espaço de estúdio e produção. Além de atuar ao lado da Colorado Film School, em Denver, para promover projetos educacionais. Desde então, o local oferece, regularmente, um “tour de fantasmas”; promove um festival de cinema de terror anual, iniciado em 2013; e sede uma festa de Halloween todo ano. E, agora, tem um museu de terror. Tá bom ou quer mais?  E aí, partiu Colorado?

Jessica Crusco
Colaborador | | Também do autor.

Jessica Crusco é formada em RTV, pós graduada em cinema, mestra em bad vibes e doutora em problematizar. Frustrada por saber que não irá conseguir assistir todos os filmes de sua lista de 'quero ver' antes de morrer.

>