Cinquenta Tons Mais Escuros (Crítica)

Finalmente chegou a estreia da aguardada (?) continuação do sucesso Cinquenta Tons de Cinza, uma produção polêmica, que muita gente ama e odeia ao redor do mundo. Dona de vários Framboesa de Ouro (premiação dos piores do ano) em 2015, o filme que retrata o amor de Anastasia Steele e Christian Grey é um daqueles que muita gente gosta de falar mal, mas não deixa de dar uma espiadinha quando vê passando no Telecine, afinal, se tem uma coisa que mexe com a galera, é o sexo; principalmente se a história em questão gira em torno disso.  Se ela tiver um pouquinho de safadeza proibidona então nem se fala. Enfim, se a história é certa ou errada como muitos gostam de debater, se ela faz jus a toda polêmica que se meteu, eu não estou aqui para dizer, porém, uma coisa que posso afirmar é: nos próximos dias TODO MUNDO vai comentar sobre ele, pois se o primeiro já gerou o pandemônio que foi, esse aqui então pretende fazer muita gente surtar… para o bem ou para o mal.

Com um pouco mais de suspense (sim) e erotismo, essa segunda parte começa exatamente de onde a primeira parou e Anastasia está tentando esquecer Christian de qualquer maneira. Ela não quer mais saber do bofe, até que, como todo cabra que sabe que fez burrada, ele corre atrás dela dizendo que ‘’ah, não é bem assim, eu quero mudar e agora vai ser do seu jeito’’. Ela que não é boba nem nada, aceita a proposta, mas claro que de vez em quando aceita um tapinha aqui e outro ali. Tudo vai bem, todo mundo tá feliz, todo mundo tá saciado…  até que surge Leila, uma dondoca que já se envolveu com Christian e não tá a fim de deixar a catraca do rapaz girar, pretendendo fazer da vida desse casal um verdadeiro inferno e ameaçando colocar em risco todos os segredos do seu passado.

Deixando o romance um bocadinho de lado, em Cinquenta Tons Mais Escuros a coisa dá uma mudada. Claro que ele ainda está presente, de um jeito ainda meloso, só que agora está mais sexy. A protagonista deixou de ser tão ingênua e começa a fazer uma espécie de jogo com Christian, que apimenta mais as coisas e avança a história para um outro nível, afinal, há outros personagens ali que tiram os dois da zona de conforto e dão um ritmo bem legal na trama. Assim como no livro, parece que os produtores tiraram o pé do freio e resolveram que fariam o povo sair do cinema com a libido nas alturas. As cenas de sexo são mais quentes, mais bem feitas, os personagens estão mais sérios, melhores desenvolvidos e tudo parece ser ligeiramente mais intenso, dando realmente um rumo diferente na coisa toda e destoando bastante do clima mamãozinho com açúcar que o primeiro filme teve. Não que ele tenha ficado ausente, mas é nítido como as coisas deram um passo a frente e isso é bem legal.

Outra coisa boa de Cinquenta Tons Mais Escuros, é ver que seus protagonistas estão bem mais soltos no papel, rolou um amadurecimento deles e mesmo que o roteiro tenha suas limitações, com diálogos que não tem como levar a sério em algumas cenas, Dakota Johnson e Jamie Dornan demonstram seu empenho em fazer um bom trabalho, química eles tem e isso consegue amenizar um pouco algumas tosquices da trama. As cenas de sexo são muito bem dirigidas por James Foley (A Estranha Perfeita), que explorou bem a sensualidade dos dois e entregou um resultado satisfatório quando falamos de soft porn. É realmente nítido como a qualidade da produção evoluiu nessa segunda parte, principalmente na questão do desenvolvimento dos personagens. Christian e Ana estão melhores desenhados e entendemos um pouco mais das suas motivações, é legal ver essa mudança do cara mandão em um bobão apaixonado e da menina santa em uma mulher dominante.

Porém, mesmo tendo qualidades notáveis, Cinquenta Tons Mais Escuros sofre de dois problemas muito graves na hora de manter o público interessado. Mesmo com as cenas de sexo sendo em maior abundância que no primeiro filme, elas não sustentam um montão diálogos rasos, que diminuem a qualidade das atuações em alguns momentos e impedem a trama de avançar para algo um pouco mais complexo. Afinal, não tem como levar muito a sério algo que pretende falar sobre traumas psicológicos, utilizando uma espécie de linguagem de TV Fama, não é verdade? Faltou uma polida nesse quesito e acho que umas palavras mais sofisticadas para tratar a sensualidade, o amor e a preocupação dariam um ar mais sério na produção.

Também fica difícil se concentrar em meio a tantas passagens que são resolvidas em uma rapidez que não condiz com o clima estabelecido. Apesar de ter movimentado a trama, toda a parte da vilãzinha Leila poderia ter sido bem melhor explorada. Talvez a solução fosse dar menos atenção para situações banais e intensificar os momentos mais importantes em torno dessa personagem, também em prol das sub-tramas, criando um interesse que vai além do sexo. O resultado com certeza seria outro e garanto que o impacto nas emoções dos protagonistas seria muito mais interessante se questões mais relevantes fossem melhor abordadas. Tipo a trama que envolve a Sra. Robinson, a mulher que iníciou Christian em todo esse mundo da dominação, Kim Basinger não passou de uma coadjuvante de luxo, limitada a fazer cara de madame mimada. (mas isso pode ser culpa do excesso de botox, vai saber…)

Cinquenta Tons Mais Escuros tem um público definido e esse certamente vai gostar muito do filme. Não adianta você ir ao cinema esperando algo gourmetizado, pois só vai encontrar um filme feito para o gosto popular e que não vai entregar nada além da diversão. Beleza que seus personagens tem toda uma questão psicológica, com potencial para ir além, mas ela é feita de uma maneira superficial e de fácil digestão para atingir um público maior, ou melhor, o público que eles querem. Essa é a razão do sucesso de toda a trilogia Cinquenta Tons de Cinza, ela veio pronta para um pessoal que quer apenas ver uma história de amor safadinha e que mexa com a imaginação durante alguns dias, isso não é errado, só não vale mesmo exigir que, algo que é declaradamente assim, atinja um patamar cósmico de reflexão, afinal, você já sabe no que está se metendo, concorda? Eles apostaram no básico e isso pode (e vai) desapontar a maioria.

Se você gostou do primeiro vai gostar desse e vice versa. A qualidade nitidamente aumentou e é legal ver esse amadurecimento, mas você tem que estar com a cabeça aberta para isso. Cinquenta Tons Mais Escuros continua o romance moderninho de Ana e Christian com a pegada que todo mundo já sabe o que esperar, sem muita ousadia intelectual, mas com vontade de sobra para agradar a galera que não quer ver nada além de uma novelona mexicana regada de sensualidade e alguns mistérios. Não surpreende, mas ao meu ver, está bem longe de ofender 😉

ps: há uma ”cena” pós créditos 😉

Victor Piacenti

Um cara fanático por Stephen King, que sente um prazer imenso ao ver uma cidade sendo destruída na tela do cinema. Além de ser sagitariano, não sabe andar de bicicleta, é viciado em coxinha e acredita (até demais!) em ETs.