“Com Amor, Van Gogh” é uma experiência cinematográfica.

 

“Viva mais e você verá. A vida destrói até o mais forte”.

Esse é um daqueles filmes que esperamos uma vida para ficar pronto, pelo menos eu me senti a própria Rose em Titanic dizendo que fazem 84 anos que eu ouvi falar que Com Amor, Van Gogh seria produzido; desde então, lia sobre, assistia trailer e tudo sobre toda a produção… MENOS o bendito filme. Mas enfim, o ano de 2017 chegou e trouxe com ele essa obra de arte tão sensível que dá vontade de ressuscitar o Van Gogh, pegá-lo pela mão e levá-lo ao cinema para assistir, que é tão ele e tão dele!

A direção ficou dividida entre a polonesa Dorota Kobiela e o britânico Hugh Welchman, mas logo nos letreiros iniciais somos avisados que o que vamos ver a seguir foi pintado a mão por uma equipe de centenas de artistas, que pegaram a tarefa de contar uma história sobre a morte do holandês Vincent Van Gogh – pra quem não lembra, é aquele da orelha cortada sim – feita com uma arte que emule o próprio estilo de pintar do artista impressionista.

O trabalho de animação com tinta óleo é surpreendente e torna cada cena interessante, delicada e intensa, como de fato são suas telas. As cores, combinações e contrastes estão lá, vibrantes e maravilhosas bem em frente aos nossos olhos. As pinturas parecem dançar na tela e a cada frame notamos as pinceladas. Confesso que passei o filme tentando me acostumar com o estilo e até o fim continuava tentando me acostumar, mas isso não era um “incomodo”, muito pelo contrário, parecia que eu estava vendo esse tipo de cinema pela primeira vez porque tudo aquilo era muito diferente do que eu já tinha visto.

Ver a técnica de Van Gogh em movimento foi uma coisa definitivamente surreal e com esse resultado tecnicamente primoroso, conseguiu ser original no âmbito do cinema do gênero e foge da mesmice das animações computadorizadas da Disney, Pixar, Dreamworks (nada contra inclusive viva a diversidade de formatos!), aqui a proposta é outra e um deleite para os olhos, destaque para as cenas de chuva ou quando fazem transições entre cenas, é coisa linda. Evidentemente, por ser referência a um pintor famoso, em vários planos há homenagens diretas à telas dele – que são pormenorizadas nos créditos finais. Mas mesmo pra quem conhecer pouco ou nada sobre o pintor, vai ser fácil de acompanhar e apreciar.

A trama do filme caminha de maneira quase tão misteriosa como o personagem que dá nome ao título. Junto com o mensageiro Armand Roulin, somos conduzidos a acompanhar uma investigação que embora não chegue a ser noir, tem elementos de reviravoltas e falsas aparências acerca da morte, mas não só sobre a morte de Vincent Van Gogh, como principalmente sobre a alma e mente desse artística único, baseando o roteiro em pistas e mistérios reais.

O elenco é um espetáculo de carisma e competência, todo homogêneo e de modo algum foi comprometido pelas pinceladas emulando a arte do finado holandês. Quem rouba a cena é a garçonete simpática feita por Eleanor Tomlinson (O Ilusionista), mas destaque também para Saoirse Ronan (Brooklyn e Lady Bird) e Douglas Booth (Noé) que estão maravilhosos em seus papéis! Durante a narrativa informações de diversas pessoas que o conheceram no período de sua morte tentam desvendar e entender quem ele era de verdade. Suas motivações, frustrações, paixões, decepções, pequenos momentos de alegrias e grandes tristezas refletidas em feridas permanentes são reveladas em informações que se desencontram, porém mostram a enorme complexidade e aura única desse ser humano.

É um verdadeiro disse-me-disse, uma fofocaiada absurda em cima da vida do pintor, todos os personagens são fofoqueiros, estamos em 1800 e bolinhas e povo já curtia uma fofoca, mas com isso conseguimos presenciar o impacto causado por sua morte e por sua arte. Arte essa que amenizou por alguns anos sua imensa solidão e impactou para sempre os muitos que conviveram com o genial pintor. É interessante o modo como os personagens das telas famosas vão se relacionamento ao longo do filme. Porém, o argumento e eixo central do roteiro deixam um pouco a desejar, um filme desse tipo pode cair facilmente na arapuca de dar ênfase demais no visual e menos no enredo, de fato.

O lado estético que dá vida às suas telas é primoroso e se fossemos avaliar apenas o aspecto técnico isolado no esforço da pintura, estaria até agora batendo palmas pro filme. É visualmente deslumbrante, ainda que em certos momentos esse esforço constante em produzir o traço do Vicentinho, faz com que a rotoscopia deixe nossos olhos malucos. O uso de sombras, posicionamentos de câmera, composição das cenas, enfim, toda a linguagem visual do filme é extremamente precisa e bem pensada,o fato de ser pintura só faz com que o filme se torne uma peça única da sétima arte moderna.

Isso chega a tornar algumas cenas simples – como do personagem andando na rua, num pesadelo perturbador, como se o cenário se desintegrasse. Uma pena que termine de modo pouco contundente, quase anti-climático, talvez por excesso de zelo a Van Gogh e sem coragem para um desfecho mais eletrizante.

Apesar do roteiro morno, o que mais chama a atenção aqui é a composição visual da animação, feita quadro a quadro manualmente com tinta a óleo, inclusive é a primeira animação da história do cinema a utilizar a técnica e não é uma mera escolha estilística, é um recurso de imersão, de sensibilização, uma viagem através do universo no olhar do artístico pintor. A trilha sonora incrível de Clint Mansell (o mesmo que sempre trabalha nos filmes do Darren Aronofski e fez a de Cisne Negro, Requiem Para um Sonho, etc) dá o tom perfeito para as composições das cenas.

Com Amor, Van Gogh só não leva 5 estrelas porque não consigo superar a ideia de que o filme poderia ter sido uma obra-prima se o roteiro fosse uma biografia dele ainda vivo, contada sob o ponto de vista do próprio pintor e não apenas recortes póstumos aleatórios, talvez nos apresentasse um toque mais íntimo e próximo e não uma visão distante de sua trajetória. Ainda assim, um ótimo filme que merece ser descoberto por ser uma das experiências cinematográficas mais deslumbrantes dos últimos anos, pois tal como Van Gogh, precisamos e devemos sentir mais.

 

Jessica Crusco

Jessica Crusco é formada em RTV, pós graduada em cinema, mestra em bad vibes e doutora em problematizar. Frustrada por saber que não irá conseguir assistir todos os filmes de sua lista de 'quero ver' antes de morrer.