“A Comédia Divina” nos diverte, apesar dos personagens caricatos.

Em crise, um programa jornalístico demite uma repórter e em seu lugar contrata Raquel (Mônica Iozzi), jornalista recém-formada, caso do âncora garanhão, Mateus (Dalton Vigh). Incomodada pela convivência com Lucas (Thiago Mendonça), um inconformado ex-namorado que trabalha na produção, ela vê sua carreira decolar graças a um furo: o Diabo (Murilo Rosa) acaba de abrir sua própria igreja na Terra.

A história retrata o Diabo, figura tão temida, como uma entidade caricata e quase que humanizada. Um belo dia, ele descobre que sua imagem anda em baixa, e preocupado com isso, resolve descer à terra com o objetivo de mostrar o quanto foi injustiçado e o quanto é incompreendido. Ele decide, então, abrir sua própria igreja, onde tudo o que é proibido passa a ser permitido, o ser humano é estimulado a liberar seus instintos primitivos, e a realizar suas fantasias reprimidas. Usando a televisão para propagar a chegada da nova religião, Satanás instala a desordem e o mundo vira um caos.

Inspirado no conto da “A Igreja do Diabo”, de Machado de Assis, o filme tenta trazer ares de historietas e a clássica moral da história, onde no final, a gente revisa aquela lição de que, não vale a pena se vender por prazeres ou conquistas terrenas, pois o preço é alto demais. Com atores conhecidos no elenco e uma história já conhecida do público, podemos acompanhar diversas situações e piadas que tiraram um ou outro riso da platéia, e toda aquela crítica sobre os sete pecados capitais, explorando mais a ganância, vaidade, luxúria e a gula, ou seja, os conflitos humanos e a busca por coisas passageiras, que no final, descobrimos não terem tanta relevância quanto achávamos que teria.

Thiago Mendonça, vive Lucas, que representa o lado humano, a ingenuidade, aquela esperança e fé no amor, e também as angústias que todos carregamos, ao descobrirmos sermos frágeis em busca de aceitação; ele seria o contra ponto, entre os demais personagens, que encarnam os pecados capitais, como Dalton Vigh, que vive Mateus, um homem movido a luxúria e vaidade, sem se dar conta de que o amor existe, assim como o personagem de Mônica Iozzi, Raquel, gananciosa, capaz de fazer um acordo com o Diabo, para obter vantagens e ter o sucesso que sempre desejou ter.

É nítido o embate do bem e o mal, mas é irônico como ele não se estabelece diretamente entre o maquiavélico personagem de Murilo Rosa, e a personagem de Zezé Motta (Deus), mas sim entre o esperançoso Lucas e próprio Diabo. Lucas faz o papel da consciência humana, resiliente e cheia de bondade, capaz de acreditar que é possível resgatar até o pior dos seres humanos, enquanto o Diabo, sedutor e sagaz, se corrói por não conseguir sequer acreditar, que Deus apenas observava, sem necessitar intervir, enquanto um simples humano era capaz de desafiá-lo e ter tantos sentimentos bons dentro de si. É nesse embate que o filme se segura, que a história nos mostra o quanto somos capazes de transformar as situações, quando acreditamos no melhor e fazemos o melhor.

Óbvio que o filme é uma comédia e vem para divertir, muito mais do que causar comoção ou reflexões profundas, ele tem seus momentos bons, com algumas piadas certeiras e situações constrangedoras que nos fazem rir, mas os personagens se apresentam de maneira tão caricata que remeteram muito às comédias de auditório que costumavam passar aos sábados de noite, ou seja, por vezes foi bem forçado.

O filme traz até uma participação especial do diretor Toni Venturi (o que achei sensacional) que denota bastante o envolvimento dele no projeto, também percebemos outras participações ilustres e o elenco parecia entrosado, foi interessante poder enxergar o Diabo como um ser engraçado e até vulnerável, percebemos que o diretor quis evidenciar releituras de alguns clichês e aquele arquétipo do Diabo sedutor, que encanta para poder causar estragos depois. Um ponto muito positivo foi a trilha sonora, que estava ótima e arrematava bem as finalizações das cenas, dando prioridade à Música Popular Brasileira.

A Comédia Divina não é  um filme perfeito, peca por alguns exageros nas interpretações e até na própria história. Talvez seja característica do próprio conto de Machado de Assis, talvez fosse mesmo proposital, mas é evidente o esforço do diretor e de toda equipe em nos trazer uma comédia com um assunto tão polêmico, e com um elenco tão bem escolhido e entrosado… vale à pena dar uma conferida para cada um tirar suas próprias conclusões!

PS: o trocadilho do nome do filme, apesar de clichê, achei sensacional!

Ah!! O Murilo Rosa tem um convite exclusivo para vocês <3

 

Liliane Stoianov

Trintona, psicolouca, pedagoga, ama viajar, tocar piano, compartilhar minha paixão que é o cinema, os devaneios e o que mais vier à cabeça durante as tramas e películas que assisto.