”De Canção Em Canção” tem um elenco incrível e uma história vazia.

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‘’Qualquer experiência é melhor do que não ter experiência alguma’’. Essa frase é dita pela personagem de Rooney Mara, em meio a cortes repentinos e imagens conceituais, durante uma de suas reflexões e desabafos no início do filme. Diante deste primeiro vislumbre, entendemos que estamos diante de um filme complexo e é nesse momento que o espectador tem duas opções: encarar ou desistir.

Digo isso pois, mesmo deslumbrado com sua fotografia impecável e uma história sobre amor, traição e intrigas (coisas que adoro), quando o filme acabou eu realmente senti que tinha perdido 130 minutos da minha vida. De Canção em Canção tem a ótima proposta de mostrar uma trama mais cabeça dentro do gênero, um romance adulto parecido com Closer – Perto Demais, mas se perde em meio a um emaranhado de situações aleatórias, diálogos que tentam ser mais profundos do que são e algo que me incomodou muito, uma imensa falta de carisma daqueles que deveriam ser os nossos anfitriões durante a projeção.

Sabe quando tudo que estamos vendo ali não parece real? É tudo muito artificial e os problemas que os protagonistas escancaram na tela são tão confusos que é bem difícil entender de verdade o que está acontecendo. Os cortes rápidos e abstratos confundem o real sentido de suas cenas e seu excesso de metáforas dificulta demais o vínculo com os personagens; isso sem falar nas contradições ou falta de profundidade nas atitudes de todos eles. Ser pretensiosa e conceitual até demais é um grave defeito para essa trama.

Por exemplo, Faye (Rooney Mara)  fala no começo do filme como gosta de intensidade e ardentes paixões, mas a história em momento algum mostra esse lado tigrona da garota e o que vemos é uma menina chata, blasé e sem algo muito relevante a ser dito. O mesmo pode ser dito de Michael Fassbender, que em momento algum mostrou ser nada mais que um moleque piranha fanfarrão de meia idade. É com personagens assim que estamos lidando e uma das coisas que mais me chocou em De Canção em Canção, foi ver que todo seu visual maravilhoso é ilustrado por pessoas que soam tão vazias.

Se os personagens já não fossem desinteressantes por si só, a história também não ajuda. Sem muitos acontecimentos bombásticos ou que mantenham a nossa atenção, Terrence Mallick faz o favor de conduzir tudo com uma infinidade de narrações onde os protagonistas sussurram nos nossos ouvidos de uma maneira sonolenta e isso não é lá muito bom para uma trama que sai do nada e chega a lugar nenhum. O drama não envolve, o romance não convence e não há um conflito declarado em De Canção em Canção, tudo o que vemos durante sua longa duração é uma crise existencial de uma galerinha que ‘’sofre’’ de ‘’problemas’’ do primeiro mundo.

Estrelado por um elenco onde todos os protagonistas já foram ao menos indicados ao Oscar, De Canção em Canção, pelo menos no quesito atuações, mata a pau. Todos ali convencem com seus estereótipos, só que para mim não adianta nada ter um puta elenco envolvido, mas todos eles participarem da trama de uma maneira onde os acontecimentos não tem lá muita importância. Sério, foi um baita desperdício de Natalie Portman e Cate Blanchett, cujas personagens entram e saem do filme de maneiras extremamente repentinas e sem influenciar em nada na trama.

No fundo, De Canção em Canção não passa de uma crise existencial de pessoas ricas, que não soam nada interessantes diante das possibilidades infinitas que a temática pode trazer, e mais do que tudo, em meio a tantos problemas bem mais pertinentes que acompanhamos na vida real. O cinema não tem a obrigação de ser igual a realidade, mas as histórias, independente do seu gênero, narrativa ou pretensão artística, tem uma missão que deve ser concluída com sucesso: envolver o espectador.

Victor Piacenti
Editor Chefe | | Também do autor.

Um cara fanático por Stephen King, que sente um prazer imenso ao ver uma cidade sendo destruída na tela do cinema. Além de ser sagitariano, não sabe andar de bicicleta, é viciado em coxinha e acredita (até demais!) em ETs.

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