“Death Note” é uma verdadeira aula de como estragar uma história.

Baseado no mangá e anime de sucesso, a adaptação americana de Death Note foi bem polêmica. O trailer entregou uma trama bem diferente da obra original e uma descaracterização de seus personagens, o que gerou uma aversão aos fãs da saga e uma expectativa negativa para muitas pessoas. Com uma trama envolta de conflitos, reviravoltas e inteligência, restava aguardar para ver se, pelo menos em sua essência, a versão produzida pela Netflix seria bem sucedida.

Death Note conta a história de Light Turner, um garoto que acha um misterioso caderno que caiu, literalmente, do céu. É aí que ele descobre que esse artefato tem um poder maligno: os nomes escritos ali, morrem de acordo com a causa descrita. Porém, quando esse poder começa a sair do controle, a vida de Light vira de pernas pro ar e ele precisa dar um jeito de mudar toda a situação a seu favor.

Vou ser bem direto, Death Note não é ruim porque está diferente do anime no qual foi baseado, o problema é que toda a história que fizeram simplesmente não faz sentido algum. Isso sem falar que ela não nos envolve, os acontecimentos são aleatórios e não há uma explicação racional para NENHUM dos seus acontecimentos. Tudo, literalmente, acontece do nada e se resolve do nada. As reviravoltas são absurdas e só pioram por serem extremamente pretensiosas, eles tentaram fazer algo inteligente e complexo, mas o resultado foi o oposto, tudo soa como uma bobeira e afirmam o quão perdida a equipe estava, e digo isso de um modo geral, ok? O filme é uma verdadeira bagunça, eles não se apoiaram no material original e também não conseguiram fazer uma história nova que fosse plausível ou que despertasse o mínimo de emoção.

Se Death Note tem um roteiro bizarro e uma direção confusa, ao menos as atuações poderiam salvar, não é mesmo? Sinto em informar, mas o elenco é pessimamente escolhido e em vários momentos me passou pela cabeça que eles sabiam a merda que tinham se metido e resolveram avacalhar. A atuação de Nat Wolf (A Culpa é das Estrelas) é um horror, ele não convence como um justiceiro (até mesmo porque o roteiro desenvolve porcamente isso) e principalmente, ele não demonstra carisma algum para que a gente se sensibilize com qualquer um dos dramas pessoais que insistiram em tentar nos fazer engolir, sério, não dá para defender. O que eram aqueles gritinhos? E o que falar de Mia e L? Se não desenvolveram apropriadamente o protagonista, vocês já devem imaginar os coadjuvantes, que são extremamente rasos e com motivações tão subjetivas que chegam a dar pena.

Esse é o resultado de uma história apressada e que abusa demais do velho hábito dos americanos em querer americanizar tudo. O Death Note original tem uma história complexa, cheia de acontecimentos e reviravoltas, eles tentaram simplificar tudo e acabaram deformando todas as qualidade de sua matéria prima; tornando tudo um velho clichêzão enlatado e deixando de lado elementos incríveis que poderiam muito bem fazer toda a diferença. Olhos de Shinigami, manter o caderno em segredo, o duelo intelectual entre Light e L, não há nada disso aqui e chega a ser desesperador saber que todo o potencial da trama foi desperdiçado com algo tão imbecil. O final do filme ilustra muito bem o que eu quero dizer, não só no quesito atuações, mas sim em como tudo que vimos não passa de bela de uma tranqueira. Ah, e a trilha sonora? O QUE ERA AQUELA TRILHA SONORA, GENTE?????

Apesar de mortes violentas e bastante sangue, coisa que particularmente adoro, Death Note não passa de um filminho furreca e uma verdadeira aula de como ferrar com uma história foda. É tudo tão apressado e sem vínculo com o espectador que fica muito difícil imergir nesse mundo, até mesmo porque não há nada da mitologia do anime por aqui, coisa que daria um diferencial enorme na trama. Faltou ousadia e principalmente, faltou intensidade; uma história sobre um caderno mortal e uma pessoa inteligente no comando dele, merecia tudo isso. Infelizmente, Netflix, não tenho como te defender, não tenho como ficar do teu lado! 🙁

 

Victor Piacenti

Um cara fanático por Stephen King, que sente um prazer imenso ao ver uma cidade sendo destruída na tela do cinema. Além de ser sagitariano, não sabe andar de bicicleta, é viciado em coxinha e acredita (até demais!) em ETs.