Demônio de Neon (Crítica)

Falar sobre Demônio de Neon não é uma tarefa fácil, afinal, este é um filme com muitos conceitos, metáforas, simbolismos e que necessita um pouquinho de boa vontade mental de quem se propõe a assisti-lo. Não digo isso por ele ser difícil de entender ou abordar as coisas de uma maneira muito transcendental, com certeza não, mas não da para negar que estamos diante de uma obra que mexe com nossos neurônios, seja para o bem ou para o mal. AME ou ODEIE, não dá para ficar indiferente a tudo o que vemos, e por mais que essa seja uma qualidade maravilhosa se tratando de cinema, não é tão simples assim colocar em palavras todas as sensações que ele nos traz a tona ao longo da projeção.

Demônio de Neon

Tendo como cenário o mundo da moda, nós acompanhamos Jesse, uma garota de 16 anos que perdeu os pais recentemente e está tentando carreira de modelo. Por ter uma beleza quase angelical e uma aparência jovem e ingênua, o sucesso parece ser inevitável em sua vida, despertando o interesse de muita gente influente no ramo e também a fúria de suas concorrentes, que movidas pela inveja e cobiça, farão da vida de Jesse um verdadeiro inferno.

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Apesar de uma estética impecável, acredito que Demônio de Neon sofre de um problema gigante que é a sua longa duração. Apesar de manter um clima de suspense onde há qualquer momento a merda pode ir para o ventilador, ao longo do filme há muitas situações que não fazem diferença alguma para a trama e elas acabaram me causando um certo tédio e desinteresse durante boa parte. Mesmo com a fotografia colorida e a trilha sonora incrível, algumas tomadas são bastante extensas, dando a sensação de que o diretor Nicolas Winding Refn (Drive) estava preenchendo linguiça. Há bastante tempo perdido com coisa desnecessária, muito lenga lenga e isso acabou me irritando um pouquinho, afinal, se era para chegar no ponto onde as coisas chegaram, porque não explorar isso de uma maneira mais intensa? Não dá para negar que falta conteúdo na sua trama, um vínculo verdadeiro com os personagens e suas motivações, achei muito irônico estarmos diante de um filme que gira em torno da superficialidade das pessoas e seu desenvolvimento ser tão superficial quanto.

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Mesmo com toda essa questão de sua construção vazia, uma coisa que me chamou bastante a atenção, positivamente, é o fato de que ele aborda a questão dos padrões de beleza, mas a sua narrativa e montagem vai totalmente contra isso. Ela é incomum, estranha, nós vemos o lado feio das pessoas bonitas e toda essa controvérsia caiu lindamente para a trama, que misturado com a sua parte estética, deram um estilo muito bonito e único ao filme. Principalmente quando chegamos nos minutos finais, que além de brutais, desconstrói também todos os nossos padrões cinematográficos, ele quebra aquela velha fórmula que conhecemos e toma um rumo chocante, surpreendente e desconfortável. Todo o clímax da trama é de uma loucura sem tamanhos e muitas coisas começam a passar na nossa cabeça, é difícil ficar indiferente a esta parte e acredito que se tratando de cinema, é um ponto mais do que admirável a ser alcançado. Particularmente, acredito que não tem coisa mais frustrante do que assistir um filme e se esquecer dele logo em seguida, mesmo com todos os defeitos, não acho que aqui isso ocorra. Não dá para esquecer aqueles minutos finais, NÃO DÁ!

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Assim como suas personagens, Demônio de Neon é absolutamente lindo por fora, mas por dentro esconde coisas bem incômodas, como a falta de consistência e um vazio tremendo; mesmo com uma brutalidade prestes a eclodir a qualquer momento. Se toda a enrolação e falta de informações no seu desenvolvimento foi proposital, para servir como uma espécie de metáfora, realmente não sei dizer, talvez até seja, mas por se tratar de uma obra cinematográfica acredito que poderia sim ter um trabalho mais intenso neste quesito, principalmente como justificativa para o seu atordoante final. Quando sua mensagem fica clara e o diretor mostra a que veio, seus rumos surpreendentes transformam o filme em um retrato moderno sobre a inveja e a loucura; que mesmo com defeitos gritantes, contém pontos positivos que batem de frente, tornando este um daqueles filmes muito difíceis de se recomendar, avaliar e que com certeza vai gerar muito debate e polêmica entre os fãs da sétima arte.

3 estrelas

Victor Piacenti

Um cara fanático por Stephen King, que sente um prazer imenso ao ver uma cidade sendo destruída na tela do cinema. Além de ser sagitariano, não sabe andar de bicicleta, é viciado em coxinha e acredita (até demais!) em ETs.