“Detroit em Rebelião” tem intenções claras e não é agradável

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Os anos 1960 são muito lembrados como uma época efervescente, principalmente por causa de movimentos populares importantes em 1968. As manifestações de maio em Paris, a Primavera de Praga, a Passeata dos Cem Mil no Rio de Janeiro e a Batalha da Maria Antônia em São Paulo são só alguns exemplos de um ano inquieto. Mas a década também testemunhou conflitos e levantes em outros momentos, e especificamente nos Estados Unidos os principais motivos de tensão eram as questões raciais. Não por acaso, foi nesse período que o ativismo de Martin Luther King teve seu auge, e foi com esse pano de fundo que aconteceu a história real de Detroit em Rebelião.

Em uma noite de julho de 1967, a polícia de Detroit realizou uma batida em um bar de um bairro negro. A ação resultou na prisão de algumas dezenas de pessoas, que aconteceu diante de uma plateia de moradores locais. Não eram poucas testemunhas, e os gritos de indignação logo ganharam força e, depois que a polícia foi embora com os presos, a onda já tinha se espalhado e gerado uma série de depredações e saques que rapidamente se desdobraram para toda a cidade. A revolta se estendeu pelos 4 dias seguintes em clima de guerra civil, com toques de recolher e patrulha policial constante pelas ruas. Ao todo, foram contabilizados 43 mortos, mais de 1.000 feridos e mais de 7.000 prisões relacionados a incidentes diversos.

Este novo longa de Kathryn Bigelow começa muitos anos antes, com uma sequência que dá o contexto histórico da levada dos africanos aos Estados Unidos. Em poucos minutos, já acompanhamos a cena da infame batida policial seguida da revolta generalizada. Ainda no primeiro ato, uma sequência em tom jornalístico percorre quase todos os dias da rebelião até chegar à noite do incidente do Motel Algiers, que vai ocupar quase todo o filme. Ao abrir o filme com grandes saltos de tempo para depois se concentrar em uma única noite correndo quase em tempo real, o roteiro de Mark Boal tem uma intenção nítida: mostrar que aquele incidente não é isolado e carrega um peso secular. E não é de graça que o começo dos créditos seja acompanhado pela música It ain’t fair, que traz o estilo consagrado pela Motown misturado com umas rimas de rap poderosas sobre a violência policial contra negros. Composta para o filme pelo grupo The Roots, ela estica o contexto até os anos seguintes e diz ao espectador que aquilo que começou há vários séculos continua até hoje.

E a música da época tem um papel importante ao longo de todo o filme. Enquanto os conflitos acontecem nas ruas, o quarteto The Dramatics se prepara para subir no palco de um auditório e impressionar olheiros da Motown. É o começo do principal arco do filme, que também vai deixar clara sua intenção ao longo de toda a projeção. Quando vai chegando sua vez, o grupo é impedido e o apresentador avisa ao público que todos devem ir para casa em função dos riscos da situação lá fora. Diante da frustração, um dos Dramatics se recusa a deixar o lugar, sobe no palco depois que todos já se retiraram e descarrega sua voz na direção do auditório vazio que antes recebia um público animado e dançante. Essa cena apresenta a história real de Larry Reed, um dos fundadores do grupo e sobrevivente do incidente do motel, e serve de metáfora para uma voz que não quer se calar e não consegue ser ouvida.

O drama de Reed é o fio condutor, mas é difícil considerá-lo um protagonista de modo estrito. O filme se apoia nos dramas de vários personagens em maior ou menor grau, o que serve de saída inteligente para uma história que é muito concentrada em um único acontecimento, uma única locação e um grupo limitado de personagens. O que poderia facilmente ser repetitivo ganha nuances ao se tornar humano. Além disso, a direção acompanha essa dinâmica empregando uma subjetividade sempre fluida, o que permite ainda que a orientação espacial reflita o caos da situação, mas sem prejudicar a geografia das cenas. Não há planos muito abertos dentro do motel, até pelo espaço limitado, mas o espectador nunca se perde porque fica confinado ali tempo o bastante para se familiarizar.

Outro efeito desse confinamento é o aumento da tensão, já que acompanhamos muito de perto uma série de abusos policiais. Estamos ao lado das vítimas com as mãos na parede enquanto são submetidas a torturas psicológicas. Estamos em cima do ombro de um policial que dá uma coronhada no rosto de uma delas. E isso acontece enquanto sabemos que um corpo está estirado em uma poça de sangue do outro lado da parede. Tudo é muito cruel e flerta com uma linguagem documental que quer nos fazer sentir o máximo possível e chegar aos créditos cantando junto com a música: it ain’t fair, não é justo.

Com o título nacional, fica inevitável pensar em Mississippi em Chamas, também baseado em história real. Enquanto Detroit em Rebelião mostra um crime de ódio em andamento, o filme dos anos 1980 se concentra em uma investigação, mas ambos são idênticos no tema e na brutalidade e deixam um gosto igualmente amargo, e o longa de Mississippi se passa apenas 3 anos antes do de Detroit. Também dá pra fazer uma ligação externa aos filmes, já que, em uma cena do clássico, o personagem de Willem Dafoe inspeciona os restos de um incêndio criminoso na fazenda de uma família negra e comenta que “eles têm parentes em Detroit”. É fácil imaginar o menino que aparece na cena em meio às rebeliões de 3 anos depois, e isso só vem somar ao argumento deste novo longa: trata-se de um problema endêmico e contínuo e não de histórias isoladas de cinema.

Lucas Mendes Kater
Colaborador | Também do autor.

Tradutor, revisor e redator, ocasionalmente se infiltra no audiovisual pra tirar um troco. Formado em Letras e pós-graduando em Escrita Criativa, com ênfase em ficção pra ver se aprende a mentir. Também diz que é músico, mas só toca uns rock feio, sujo e errado.

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