Dois Irmãos (Milton Hatoum)


Dois Irmãos é a história de como se constroem as relações de identidade e diferença numa família em crise. É a história de dois irmãos gêmeos – Yaqub e Omar – e suas relações com a mãe, o pai e a irmã. Moram na mesma casa Domingas, empregada da família, e seu filho. Esse menino – o filho da empregada – narra, trinta anos depois, os dramas que testemunhou calado. Buscando a identidade de seu pai entre os homens da casa, ele tenta reconstruir os cacos do passado, ora como testemunha, ora como quem ouviu e guardou, mudo, as histórias dos outros. Do seu canto, ele vê personagens que se entregam ao incesto, à vingança, à paixão desmesurada. O lugar da família se estende ao espaço de Manaus, o porto à margem do rio Negro: a cidade e o rio, metáforas das ruínas e da passagem do tempo, acompanham o andamento do drama familiar.

Confesso que não me aproximei desse livro por vontade própria, mas sim, motivado pelos constantes anúncios da Rede Globo sobre a minissérie baseada no livro que está próxima de entrar na programação do canal. Não me arrependo nem um pouco de ter lido. A história nos é contada pelo “filho da empregada” que não vou dar nome ao personagem, pois o mesmo só acontece no decorrer da trama. Assim que se começa a leitura percebemos que estamos entrando em um território familiar que deveria ser sigiloso, contido dentro das paredes daquele lar em Manaus, turbulento, cheio de emoções e sentimentos. Sentimentos esses difíceis de se nomear, pois para alguns pode ser amor, para outros ódio, justiça e vingança batalhando por seu lugar em corações destruídos.

A trama segue a vida da família de Halim, libanês que veio para o Brasil para morar em Manaus. Junto deles temos sua mulher Zana e seus filhos: Rânia, Omar e Yaqub, gêmeos. Na casa ainda mora a empregada Domingas e seu filho que nos conta essa história. Vamos focar nos gêmeos que são os motores da trama, Omar faz o tipo “boa vida”, não trabalha, pelo menos nada honesto, vive em casas noturnas e bares, chega em casa todas as manhãs bêbado, dorme até tarde e vive sob o amor imensurável de sua mãe, um amor sem limites.

Yaqub é o “bom menino”, estudioso, apaixonado pelas cores e os cheiros de Manaus, engenheiro formado em São Paulo e um dos “melhores calculistas do Brasil”. O amor de sua mãe por ele sempre foi superficial, algo nada além da obrigação. Temos padrões de comportamentos bem diferentes para os gêmeos, durante o livro vamos acompanhar da infância deles até seus destinos nas páginas finais.  É incrível ver a distinção que a mãe faz por eles. O amor e atenção que ela entrega para Omar, o mimo, a proteção, enquanto Yaqub praticamente é criado pela empregada.

Então temos a cena chave logo no começo do livro que mostra onde se inicia o embate entre os gêmeos: uma noite abafada de Manaus, as crianças da vizinhança se reúnem em um porão para assistir um filme em um cinema improvisado. Os gêmeos estão presentes, bem como uma menina que ambos gostam. Ao apagar das luzes a menina se encosta em Yaqub e lhe dá um beijo no rosto. Omar em fúria se levanta, quebra uma garrafa e corta o rosto do irmão. A partir desse ponto vamos ver a rivalidade dos irmãos tomando forma, a criação do caráter de cada um, como são tratados e divididos.

O livro é uma excelente leitura, com cenas fortes, sugestivas, para alguns, agressivas e para outros naturais. Vemos uma cidade viva, de cheiros, cores e mistérios. Em uma das passagens que Yaqub viaja para São Paulo, relembramos a glória do centro da cidade, da Praça da República e seus antigos cinemas na Avenida São João, na época, polo cultural de São Paulo. Pelo que foi apresentado até agora pela Rede Globo, a adaptação está perfeita. Na divulgação é possível tranquilamente perceber as passagens do livro, então acredito que vale a pena assistir também essa minissérie.

Para mim a leitura foi uma boa viagem e muito recomendada. Aliás, não é isso que um livro deve ser? Um passaporte para uma viagem? Viver uma vida vivida por outro? Aqui vivemos a vida do filho da emprega, mas ainda mais, vivemos o que ele viu, sentiu e ouviu e criou uma tapeçaria com esses homens e mulheres daquela casa. Uma tapeçaria viva, mas com fios soltos e desgastados que com um pouco de pressão resulta no que vemos no decorrer da história.

Leandro Assumpção

Tem 27 anos, formado em marketing e mora em São Paulo. Viciado em livros e Starbucks. Tem poemas e contos publicados em antologias com outros autores.