Esses filmes são MUITO ”Black Mirror”!

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O cinema e a televisão sempre foram mídias de entretenimento para escapismo, fantasiando o mundo entre o passado, presente e futuro. Mas, às vezes essa reprodução toda pode ser um espelho da realidade. Um espelho. Uma tela preta capaz de refletir nossa fisionomia, nosso caráter, nossas atitudes – e, em alguns casos, até pensamentos e os desejos mais íntimos. Você pode usá-la de diversas formas e ela continuará ali, te analisando sem que perceba, sem que passe por sua cabeça que a câmera frontal, que você usa pra tirar selfies e é aparentemente inofensiva, possa gravar seus passos e saber muito mais sobre você, do que você mesmo. E meu, isso é muito Black Mirror!!!!!!“.

Não foi inspirada em 1984, do George Orwell. Também não foi inspirada em Admirável Mundo Novo, do Aldous Huxley, mas tem muito dos dois mundos distópicos e chega até a ser pior do que eles. A série, criada pelo produtor e roteirista Charlie Brooker, choca ao nos colocar de frente não apenas com a tecnologia, mas com nosso lado mais sombrio (e humano). Black Mirror provoca, incomoda, proporciona uma espécie de “overthinking” e você sai com uma sensação de “caramba, isso é sério? Espera só um pouquinho, vou ali excluir todas as minhas redes sociais e já volto”.

Se você, assim como nós gostou da série e está sentido saudades de episódios novos, aqui vai uma lista de filmes que mostram os perigos da tecnologia também no cinema. Muitas histórias abordam a maneira como as relações humanas são afetadas pela tecnologia e pela ciência. Uma boa ficção científica não precisa se passar no futuro, com monstros e lutas do bem contra o mal: um simples telefone celular pode servir para uma pessoa revelar o seu lado mais sombrio.

”ELA”, 2013

A bad trip foda de Ela é pensar que, na verdade, isso não está tão longe da nossa realidade. O filme é como uma espécie de crítica para o nosso futuro quase imediato. Aliás, isso já vem acontecendo mas não de forma tão ilusória (ainda). Um homem se apaixonar por um sistema operacional poderia ser ridículo, poderia ser forçado, mas com a sensibilidade do diretor Spike Jonze, isso se torna uma das histórias de amor mais bizarramente bonitinhas do cinema recente.

Impressiona o fato de que a gente achar muito natural alguém se apaixonar por um sistema operacional. Isso porque o solitário Theodore (Joaquin Phoenix) encontra na voz de Samantha (Scarlett Johansson) alguém que o aprecia, que ri e chora com ele…  e a medida que as necessidades dela aumentam junto com as dele, a amizade dos dois se aprofundam em um eventual amor. E convenhamos, quem não se apaixonaria pela voz da Scarlett Johansson?

”O SHOW DE TRUMAN”, 1998

O pacato vendedor de seguros Truman Burbank (Jim Carrey) é uma pessoa normal como todas as outras, aparentemente. Porém, algumas coisas ao seu redor fazem com que ele passe a estranhar sua cidade, seus supostos amigos e até sua mulher. Tudo é sempre igual, o cotidiano é completamente “ensaiado” e plastificado para acontecer de maneira contínua, parte do show. A cidade sempre igual nos lembra do episódio “White Bear” de Black Mirror onde uma mulher acorda sem se lembrar quem é. Não sabe onde está e nem por que tanta gente está gravando ela com os celulares. E isso se repete, por todos os dias.

Assim como no episódio, o filme nos traz uma perspectiva explícita e uma ácida crítica à sociedade do espetáculo. O fato de a mídia fazer da vida de pessoas um grande objeto de entretenimento. No filme, Truman tem sua vida virada de cabeça para baixo quando descobre que é o astro, desde que nasceu, de um show de televisão dedicado a acompanhar todos os passos de sua existência. Sim, isso mesmo, um reality show todinho dele, ou seja, desde que nasceu vive em uma cidade completamente projetada para ele, onde seus movimentos são monitorados 24 horas por dias e transmitidos para todo o mundo. O filme também se refere ao quanto o “mundo real” em que vivemos é também construído por padrões e regras impostas e seguidos sem o menor questonamento. E quando alguém percebe isso e tenta seguir de uma maneira despadrozinada, como tenta fazer o protagonista do filme, somos hostilizados por algo muito maior. No filme, representado pelo produtor, na vida real, o pensamento coletivo.

Aceitamos a realidade do mundo no qual estamos presentes. São poucos tem que coragem de “passar pela porta” e encarar a vida. Aposto que todo mundo que assistiu esse filme pensou “será que eu estou vivendo no Show de Truman?”, é um pensamento inevitável. E se esse não é o tipo de filme feito pela Matrix para não pensarmos que vivemos numa Matrix?

Enfim, somos todos Trumans, mas nem todos conseguem se libertar da programação.

”BRILHO ETERNO DE UMA MENTE SEM LEMBRANÇAS”, 2004

Black Mirror trouxe um episódio chamado “The Entire History of You” que tratava sobre a necessidade de um casal em registrar absolutamente tudo que acontecia na vida dos dois. Michel Gondry trouxe um filme que propõe o contrário: o esquecimento seletivo. É o fim do sofrimento após o fim de um namoro! Em Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, Jim Carrey interpreta Joel, um homem magoado por sua namorada, Clementine que é interpretada pela Kate Winslet, tê-lo deletado (literalmente) de sua memória. Inconformado, resolve retribuir na mesma moeda e contrata a mesma empresa para passar pela mesma experiência. No decorrer da operação, Joel percebe que na verdade, ele não quer excluir Clementine de sua vida e sim manter bem viva em sua memória os momentos em que estiveram felizes. A partir de então, ele enfrenta uma incrível luta dentro de sua própria cabeça para que as memórias continuem vivas dentro de si.

”CUBO”, 1997

Um grupo de desconhecidos acorda dentro de um cubo. Eles estão presos nessa estrutura gigantesca que lembra os famigerados cubos mágicos, no qual cada cubo interno pode ser reordenado e gente, dá um desespero tudo aquilo! Mas a pergunta que não quer calar é: como eles foram parar lá? De que maneira podem escapar às ameaças em cada cômodo? No meio do caminho entre Black Mirror e Jogos Mortais, esse filme assumidamente trash faz pensar de que modo a tecnologia pode ser usada para dar vazão à perversão humana.

”O PREÇO DO AMANHÔ, 2011

 Esse filme com o pãozinho de mel Justin Timberlake e a pãozinho de côco Amanda Seyfried, leva ao pé da letra a ideia de que “tempo é dinheiro”. No futuro, o tempo é a moeda de troca em todas as relações, inclusive no trabalho. Quando o seu tempo acaba, você morre, enquanto os ricos podem viver para sempre, explorando o tempo alheio. A crítica desse filme é parecida com a do episódio “Fifteen Million Merits” de Black Mirror abordando a exploração, desigualdades sociais, condicionamento e até medo da morte.

”VANILLA SKY”, 2001

A versão americana de “Abre Los Ojos” traz Tom Cruise no elenco interpretando um homem poderoso que costuma sair sem compromissos com uma colega de trabalho, Julianna, interpretada por Cameron Diaz. Quando ele se apaixona seriamente por Sofia, interpretada pela Penelope Cruz, a amante enciumada provoca um acidente de carro com o protagonista dentro. Depois disso, ele não consegue mais compreender o que acontece ao seu redor. Esse filme lembra os episódios “Playtest” e  “Men Against Fire” em que se torna impossível distinguir a realidade da ficção.

”EX MACHINA”, 2015

Em um refúgio nas montanhas de um talentoso técnico em informática chamado Nathan Bateman (Oscar Isaac), um jovem participa de uma estranha experiência onde é convidado para um teste: ele deve provar que um robô com inteligência artificial não poderia se passar por um humano. Caleb (Domhnall Gleeson, ator que inclusive já participou do episódio ”Be Right Back”) possui os conhecimentos necessários, mas o robô Ava (Alicia Vikander) demonstra todas as qualidades humanas, como emoções, humor, poder de sedução, etc., essa criatura se apresenta sofisticada e sedutora num nível que ninguém poderia prever, complicando a situação ao ponto que Caleb não sabe mais em quem confiar. A experiência se torna uma sinistra batalha psicológica: um triângulo amoroso, onde a lealdade está dividida entre homem e máquina. Esse filme tenta trazer em pauta as ambições da ciência, tecnologia e o medo de que os robôs, um dia, possam superar os humanos.

”EU, ROBÔ”, 2004

Falando sobre a convivência entre humanos e robô, esse filme traz uma versão cheia de cenas de ação, mas a ideia também é imaginar as máquinas se revoltando contra os humanos. Nesse filme, Will Smith interpreta um detetive convicto de que um robô matou um ser humano, apesar de as máquinas terem sido criadas para nos ajudar. Logo, outros robô começam a fugir do nosso controle. O que fazer quando milhares de seres mais fortes do que nós decidirem assumir o comando do planeta?

”NERVE – UM JOGO SEM REGRAS”, 2016

Uma garota (Emma Roberts), prestes a sair do ensino médio e sonhando em ir para a faculdade, decide participar de um jogo online: verdade ou consequência, um jogo onde todos os seus passos e atos são vistos e manipulados por uma comunidade anônima de hackers. Ou seja, é o tipo de filme que seria um super episódio de Black Mirror se mais aprofundado; mas assim como a série, o filme vem com essa mesma premissa de mostrar o lado negro da tecnologia, nos trazendo uma realidade, infelizmente, não tão distante assim, se aprofundando nessa necessidade de estar conectado que cada vez absorve mais pessoas.

”O LAGOSTA”, 2015

Esta história parece se passar nos dias de hoje, mas ela apresenta uma sociedade diferente, na qual as pessoas são obrigadas a viver em casais. Quem estiver solteiro pode ser transformado num animal e liberado na natureza. A premissa é absurda, ousada e perfeita para explorar nossas inseguranças em relação ao amor e ao modelo tradicional imposto pela sociedade.

BÔNUS

”ZOANDO NA TV”, 1999

Zoando na TV é um roteiro que inspirou DIRETAMENTE a série Black Mirror, se você concorda bate aqui.

Vamos combinar, gente. Esse filme foi de longe o filme mais Black Mirror de todos! Um casal de namorados é misteriosamente puxado para dentro da televisão e precisam combater os vilões que tentam controlar a programação. Em meio a tantas situações passeando por dentro dos canais da TV, o casal vive um dIlema, tendo que decidir se prefere voltar ao mundo real e as suas vidas comuns ou aderem de vez ao mundo da TV e as programações. Esse filme é uma crítica social foda™, tendo referências até ao livro que citamos no começo do post, pasmem: 1984 de George Orwell. Isso mesmo. Não direi mais nada, apenas que se você ainda não assistiu, assista e vamos valorizar essa obra de arte do cinema nacional, pessoal!

”LA CABINA”, 1972

Agora sério, mas de onde venho a inspiração de Charlie Brooker para Black Mirror? A resposta tem um pouco mais de 30 minutos. Em uma entrevista para o El País, Charlie disse que foi o curta-metragem La Cabina que o inspirou, quando o assistiu pela primeira vez ainda quando era criança. Esse curta é praticamente um filme sem diálogo, claustrofóbico e possui um final perturbador e aterrorizante porém, o que o torna uma verdadeira inspiração para Black Mirror é a maneira como ele engana o espectador mais desavisado e joga na cara dele temas espinhosos para lidar.

Feito durante a ditadura de Franco na Espanha, o curta conseguiu enganar até mesmo a censura. La Cabina fala sobre a repressão a liberdade individual, e veja só, usando daquilo que na época era uma tecnologia bastante presente no cotidiano das pessoas: UMA CABINE TELEFÔNICA. *BOOOOM*

Sem mais palavras, o curta está disponível no Youtube. Assista e tire suas próprias conclucões se La Cabina é ou não é “muito Black Mirror”

Jessica Crusco
Colaborador | | Também do autor.

Jessica Crusco é formada em RTV, pós graduada em cinema, mestra em bad vibes e doutora em problematizar. Frustrada por saber que não irá conseguir assistir todos os filmes de sua lista de 'quero ver' antes de morrer.

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