“Eu, Tonya” tem a difícil missão de contar vários lados de uma história.

 

O diretor Craig Gillespie (A Garota Ideal) tenta em Eu, Tonya retratar todos os lados de uma história controversa envolvendo violência. Com seu foco principal sendo tentar acomodar todos esses diferentes pontos de vista, Gillespie acaba com um filme que não se encaixa perfeitamente no estilo que escolhe para contar sua história. Mas existem definitivamente peças de ouro muito bem encaixadas nesse tabuleiro, que permitem um respiro e fazem dos 120 minutos um espetáculo de atuações.

Baseado na vida da esportista Tonya Harding, o filme exibe as versões de sua mãe, seu guarda-costas, de sua treinadora, de seu ex-marido e da própria patinadora sobre os eventos que levariam ao grande incidente que deu fim a sua carreira. Aqui Margot Robbie (Tonya) e Allison Janney (LaVona Golden) carregam esta montanha russa de insultos, pouco amor e sofrimento, acompanhadas de Sebastian Stan (Jeff Gillooly), que mostra uma transformação física comprometida em retratar a verdade.

Com esse parecendo ser o objetivo principal – retratar a verdade –, infelizmente a missão se arrasta durante alguns minutos para incorporar na narrativa quebras da quarta parede e encenações de arquivo de vídeo. Em filmes como A Grande Aposta estes recursos servem o propósito de explicar ao público algo que seria tipicamente complicado, mas de maneira descontraída. Aqui, eles são um veículo para inserir comédia à narrativa ou reafirmar continuamente ao espectador que aquela cena específica realmente aconteceu em algum momento.

No entanto a habilidade dos atores de personificar essas “caricaturas” e soprar vida à uma comédia de erros mantém a roda girando, sem nunca cair no tédio, mas flertando em sua repetição. Ainda sem desistir de seu lado dramático, os enquadramentos permitem ao público vivenciar os atos abusivos e os momentos fora da realidade que levam a vida de Harding para um novo plano. Plano esse em que a ficção e realidade andam de mãos dadas e tudo parece absurdo.

Eu, Tonya em seu fim não é uma biografia ou um filme de esportes, mas sim uma conversa sobre o sistema de classes na américa e como o espetáculo é o objetivo final, seja a custo de uma profissão, de uma família ou uma vida inteira.

 

Vinícius Soares

Cinéfilo desde que descobriu o que significava cinema e o valor da Sétima Arte, viciado em séries em um nível saudável, desenha ocasionalmente e escreve mais do que come. Sonha em ser roteirista e jornalista e com certeza deseja ser um pouco mais alto

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