“Extraordinário” nos faz uma verdadeira sessão de descarrego.

 

Extraordinário é a adaptação de um livro da autora RJ Palacio que falei um tempo atrás aqui no site. Ele tem uma história que me ganhou não só pela simplicidade e carisma de seus personagens, mas também pela maturidade no qual aborda um assunto muito delicado, de uma maneira leve e natural, onde aos poucos conhecemos aquelas pessoas e o que passa em suas cabeças. A delicadeza no qual a trama é desenvolvida nos encanta, e também guia em uma reflexão espontânea sobre os nossos nossos comportamentos e a maneira como agimos. Fiquei muito feliz em ver que essa essência foi incrivelmente capturada na adaptação das páginas para a tela.

Aqui conhecemos Auggie Pullman um menino de dez anos que nasceu com uma deformação genética no rosto e precisou passar por muitas cirurgias para fazer coisas básicas, como falar e comer. Apesar de tudo, ele é um garoto comum, super inteligente, que quer ser astronauta e ama de paixão Star Wars. Amparado por uma família super cabeça aberta, ele se vê em mais um desafio: entrar no ensino fundamental e encarar a realidade, tendo que mostrar para todo mundo que um menino não deve ser julgado por sua aparência.

Sabe aquela sensação boa que dá, quando você chega em casa cansado, tira o sapato e fica deitado na cama bem tranquilo? Extraordinário tem bem essa pegada. É um filme que traz um conforto muito grande, seja pelo drama bem dosado, pelo humor inteligente ou até mesmo pela humanidade que seus personagens tem. É como se estivéssemos familiarizados com aquele ambiente e tudo flui de uma maneira que nos envolve justamente por ser muito próxima da nossa realidade. O roteiro do filme é tão bem feito, que consegue deixar ao mesmo tempo, um sorriso no canto da boca e uma lágrima no rosto; que aliados às grandes atuações, carregam aquelas maravilhosas sensações que só uma história bem contada nos traz.

Mas isso não seria possível se não tivéssemos um elenco à altura de seu potencial. A atuação de Jacob Tremblay é impecável e consegue imprimir cada um dos sentimentos de Auggie. Seus olhares de tristeza foram de cortar o coração e esse talento do ator, tanto para o drama, quanto para o lado mais cômico, apenas intensificou tudo. Isso sem falar em Julia Roberts, que faz uma verdadeira mãezona e tem momentos incríveis ao lado do garoto. Eu to falando sério, esses dois juntos deram um verdadeiro show de atuação. Os diálogos fortes, com frases bem escritas, dão um peso muito grande nas cenas e olha… lágrimas vão rolar e você nem vai sentir!

Mas algo que me chamou mais ainda a atenção no livro, e agora também no filme, é ver que a deformação de Auggie e o bullying que ele sofre, são um pontapé para uma trama muito maior, mostrando como as pessoas ao redor dele também são afetadas e os muitos lados de diversas ações. Teve uma cena entre a Sônia Braga e a novata (mas também excelente) Izabela Vidovic, que foi uma das coisas mais espontâneas e realistas de toda a história. Ao assistir, você entenderá, mas ali fica claro o quanto Extraordinário consegue ser muito mais do que pensamos, talvez fazendo até um comparativo com uma de suas mensagens, que é mostrar que somos muito mais do que aparentamos.

Algumas histórias não precisam de muito para nos conquistar. Extraordinário nos dá uma verdadeira lição de empatia e é uma obra, agora tanto literária quanto cinematográfica, que merece (e deve!) ser prestigiada por todos, independente da idade. Você vai chorar muito, rir muito e sair com uma sensação de leveza tão grande, que será difícil não querer colocar em prática as mensagens que ele passa. Ele tem aquela coisa do carinho, da fofura, e é tão leve, mas ao mesmo tempo tão forte, que traz uma sensação muito grande de paz no coração e faz uma sessão de descarrego na alma. 

Nós precisamos disso, o cinema consegue nos atingir em cheio e uma boa história tem o grande poder de nos transformar. Não estamos diante de um filme sobre um menino descobrindo o mundo, mas sim sobre o ser humano e suas ações, não tenho medo de dizer que é uma das coisas mais lindas e sinceras que já vi.  Seu título realmente faz muito sentido e não poderia ser mais adequado para definir tudo o que Auggie Pullman e sua família nos fazem enxergar.

Victor Piacenti

Um cara fanático por Stephen King, que sente um prazer imenso ao ver uma cidade sendo destruída na tela do cinema. Além de ser sagitariano, não sabe andar de bicicleta, é viciado em coxinha e acredita (até demais!) em ETs.