Invasão Zumbi (Crítica)

Existem finalidades distintas buscadas por diretores e roteiristas ao usar o subgênero do horror que é o apocalipse zumbi. Alguns buscam explorar diversão trash com maquiagem barata e exageros. Outros usam do mito do morto-vivo para assustar e apavorar a audiência e há aqueles que buscam na distopia discutir a sociedade, natureza humana e o caos e como basta um momento ruim para quebrar uma pessoa. É a última alternativa que o diretor Yeon Sang-ho trabalha aqui em “Invasão Zumbi” (Busanhaeng) e o faz com a dosagem certa de elementos narrativos e visuais, adicionando ao ano de 2016 um filme de qualidade na área de gênero.

O filme usa como ponto de partida um relacionamento difícil e distante entre um pai que vive trabalhando e sua filha pequena isolada pelo divórcio dos pais. Com a mãe separada pela distância e o pai distante por escolha, a garota convence o pai a lhe dar como presente a chance de ver sua mãe em Busan. Assim, os dois embarcam em um trem que acaba os colocando também no meio da epidemia de um vírus zumbi. Dentro do trem os dois irão se encontrar ainda com outros personagens típicos do gênero que ajudam a carregar a história: o herói, a mulher, um casal de jovens, o vilão e ainda há duas irmãs de idade que atuam em dois opostos como alívio cômico e ponto de virada na trama.

“Invasão Zumbi” tem três maiores trunfos. Um deles é que não existe um personagem que, mesmo estando na mesma situação dos outros, por algum motivo sabe tudo sobre os zumbis. O roteiro não subestima o espectador em momento algum pensando que toda a ação deve ser explicada e justificada com falas. Estando em um filme, imagens conseguem transmitir uma mensagem tão bem quanto se for feito de maneira certa e Sang-ho tira de letra quando se fala de construção de universo mesmo que dentro de alguns vagões.

O segundo é a habilidade no manuseamento de câmera para com a ação junto da edição. O uso da câmera na mão para criar sensação de imponência e sufocação dá aos ambientes internos do filme uma sensação real de prisão. Aqueles personagens estão realmente confinados e você acredita que eles não podem simplesmente ficar parados esperando até seu destino porque mesmo quando o roteiro parece criar barreiras para contar a história os acontecimentos quebram-na. Também existem planos amplos, que de inicio parecem que vão dar um respiro na tela, más o espaço não dá lugar a um exterior vazio e sim a um bloco de ação desgovernada que constrói tensão de fora para dentro.

“Invasão Zumbi” pode ser pensado como uma colaboração entre “Snowpiercer” e “Guerra Mundial Z”, usando o melhor dos dois em prol de uma história com originalidade. A discussão proposta pelo filme consegue achar voz na condensação da sociedade dentro de um trem para mostram como mesmo em situações de vida ou morte o ser humano ainda pode ser o maior inimigo e criar com um pequeno discurso um grupo disposto a ignorar o bom senso para sobreviver. É interessante como em um filme com zumbis, os mortos conseguem ser vistos como castigo e não como o problema maior. Esse é o terceiro ponto forte de “Busanhaeng”.

Em suma, o filme sul-coreano consegue trazer novidade e um twist ao visual dos mortos-vivos, com uma boa discussão, personagens cativantes e um universo palpável, mas complexo, em apenas duas horas. É um bom pote de inspiração para outros que querem explorar o subgênero e que deixa em seu final um gosto agridoce, não pela qualidade, mas sim pela imagem. É um senso de missão cumprida, afinal o plot inicial do filme não é levar todos a Busan e sim um dos passageiros. Então não tenha receio pela língua coreana, porque “Invasão Zumbi” merece ser visto.

 

Vinícius Soares

Cinéfilo desde que descobriu o que significava cinema e o valor da Sétima Arte, viciado em séries em um nível saudável, desenha ocasionalmente e escreve mais do que come. Sonha em ser roteirista e jornalista e com certeza deseja ser um pouco mais alto