“IT – A Coisa” é assustador, engraçado e um dos melhores filmes do ano!

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Stephen King é meu autor favorito e IT – A Coisa é um de (se não for o) seus livros mais famosos; que assusta tanto quanto pela sua temática, quanto pelo seu tamanho, com quase 1200 páginas. Durante muito tempo adiei a leitura dessa história porque né, tem que estar preparado para encarar esse monstrão, mas lembro perfeitamente do momento que decidi matar no peito e li as primeiras páginas. Foi como se eu tivesse sido transportado para uma outra vida. A trama é tão envolvente e os personagens são tão maravilhosamente escritos, que fica difícil não imergir completamente ali no meio. Misturando aventura e terror, King contou uma história sobre amizade extremamente cativante e que desperta uma porrada de sensações muito gostosas quando falamos de leitura, entre elas o aconchego, a curiosidade e claro… o medo.

Resumindo, o livro é Stephen King em sua mais pura essência.  IT – A Coisa tem uma trama sem medo de cair no absurdo, com personagens carismáticos, um perigo verdadeiro, e mais do que qualquer outra coisa, criatividade. A narrativa de King nos envolve, deixando feliz por estar ao lado de personagens tão vivos, e assustado por saber que coisas muito ruins podem acontecer com eles. É como se fossemos amigos daquele pessoal, como se vivêssemos naquela cidade, e essa impressão veio graças a maneira com que as coisas vão crescendo e como o autor desenvolve suas tramas, sem pressa alguma. Não é a toa que este livro vem se tornando um verdadeiro clássico da literatura atual.

Mas vamos falar sobre o filme. Nele nós conhecemos Beverly, Stan, Ben, Bill, Richie, Mike e Eddie, sete pré adolescentes que se denominam o ”Clube dos Otários” e vivem em uma pequena cidade chamada Derry, que está sendo assombrada por uma série de inexplicáveis desaparecimentos. Como se isso não fosse ruim o suficiente, cada um deles começa a ser perseguido por um sinistro palhaço e, quando a situação fica ainda mais macabra, eles decidem dar um fim nessa coisa, nem que para isso tenham que enfrentar os seus maiores medos.

Quando os créditos subiram na tela, um sorriso muito grande estava escancarado no meu rosto, queria muito pegar essa sensação e guardar num potinho para nunca esquecer. Digo isso por vários motivos e o primeiro deles é simplesmente por conta de todo o clima que permeia os 135 minutos de IT – A Coisa, que me despertaram as mesmas sensações que na literatura. Com bastante tensão, cenas macabras de terror e um timing cômico certeiro, o diretor Andy Muschietti (Mama) acertou em cheio quando pensamos nos verdadeiro propósito de um filme do tipo: DIVERSÃO.

Fiquei muito surpreso com toda a abordagem que a produção teve, misturando uma surpreendente violência gráfica, com uma história  (até certo ponto) leve sobre um grupo de amigos contra um monstro malvado. O filme tinha tudo para apelar para o terrorzão popular, com sustos baratos e cenas medonhas, mas não, eles seguiram a essência do livro e esse foi talvez o seu maior acerto. Afinal, Stephen King cria histórias de amizade e terror como ninguém, nada mais justo do que seguir esse material. Tudo em IT desperta uma nostalgia muito grande, desde seu visual, até a sua narrativa; que é uma mistura de Sessão da Tarde com aqueles filmes que passavam no Intercine, saca? Ao mesmo tempo em que sua história traz o conforto de uma boa aventura, traz também toda a diversão de um bom terror.

Sim, aqui você vai ver uma história lotada de sustos, vai ter palhaço louco correndo atrás de criancinha, vai ter gritaria e vai ter bastante bicho feio pulando na tela para aterrorizar a molecada, porém, tudo isso é montado de uma forma inteligente e que condiz com sua temática. Ele não tem medo de abraçar o seu lado trash e entrega momentos muito bacanas, seja de terror ou comédia. 

A química do elenco é muito grande e o fato da censura alta só beneficiou, afinal, adolescente adora falar merda e aqui os diálogos são hilários, eles não economizaram nesse sentido. Os meninos são bocas sujas e  fazem piadinha tosca um com a mãe do outro, mas tem uma amizade tão verdadeira que os torna absurdamente reais. É difícil não torcer pelo Clube dos Otários, a molecada toda mandou muito bem e elevaram demais o resultado desta adaptação. Essa pegada de cidadezinha do interior nos anos 80, com músicas antigas, passeios de bicicleta e referências à cultura pop da época, dá um ar muito gostoso na produção, tornando IT – A Coisa um filme bem gostoso de assistir.

Eu tinha muito medo de que Bill Skarsgård (Atômica) não desse conta de ser um Pennywise tão foda quanto foi o do Tim Curry na versão de 1990. Enquanto o palhaço da outra produção era mais debochado, o de Skarsgård é mais loucão. Ele grita, corre, dança e olha com um ar de ‘’vou assar sua perninha no jantar’’ que dá até agonia, isso sem falar naquele tom de voz irritante que nos faz querer que ele vá pro inferno.

O cara arrasou e todas as cenas que envolveram seu personagem, tiveram um grau de tensão sensacional. Claro, até mesmo porque um dos outros pontos positivos de IT, é que o roteiro é engraçado quando tem que ser, e assusta quando dá. Nesse quesito, tanto na galerinha do bem, quanto ao terrível vilão, não chegamos nem perto de ficar na mão, foi um verdadeiro show de novos talentos.

As cenas macabras são inúmeras e não decepcionam, eles não tiveram piedade e colocaram as crianças em DIVERSAS situações tensas. Usar o lance de assumir a forma dos medos permite que Pennywise assuma várias faces, remetendo aquele medo clássico, com bichos grotescos, lugares escuros e todas aquelas coisas que nos assustaram na infância. É na nostalgia que o filme nos ganha, mostrando que essa sensação ainda pode existir, basta termos as mãos certas no comando, e um propósito claro de nos fazer esquecer do mundo lá fora. 

A parte dramática também faz a diferença, ajudando muito na maneira como enxergamos cada um dos Otários e entendendo o afeto que sentem um pelo outro. Temas delicados como o abuso e o luto, são bastante explorados na trama e complementam com o terror, intensificando ainda mais a força da história e mostrando como houve um empenho para desenvolver a empatia entre o espectador e os personagens. Pennywise não tem escrúpulos para persuadi-los e toda as tramas paralelas não soam como enrolação, ou gratuitas, nas cenas onde o palhaço de Satanás resolve colocar a cobra pra fumar. O roteiro é muito bem montado para que a gente se importe com os protagonistas, creio que se eles tivessem falhado nesse sentido, IT – A Coisa teria dado muuuuuito errado.

IT – A Coisa é realmente um filme sensacional, assustador e engraçado na medida certa. Tenho certeza que vai fazer muito dinheiro, vai levar muita gente para o cinema e gostaria muito de ver a galera embarcando nessa história, se deixando levar pelas sensações que ela nos traz de volta. Os filmes de terror hoje em dia, salvo algumas boas exceções, pecam por tramas rasas e personagens sem profundidade, é aqui que percebemos como isso faz uma boooooa diferença. IT tem tudo aquilo que a gente procura quando pensa em um bom filme, cumprindo o seu propósito não só de divertir, mas também despertando ótimas emoções que o tornam um combo perfeito no meio de tantos outros. De verdade, não senti o tempo passar e não queria que tudo acabasse; sempre que lembro de tudo o que vi, um sorriso grandão surge no meu rosto e na minha cabeça brota um inevitável pensamento  de “caramba, que filme foda!”.  

Welcome to the Losers Club, asshole!

Victor Piacenti
Editor Chefe | | Também do autor.

Um cara fanático por Stephen King, que sente um prazer imenso ao ver uma cidade sendo destruída na tela do cinema. Além de ser sagitariano, não sabe andar de bicicleta, é viciado em coxinha e acredita (até demais!) em ETs.

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