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Jantar Secreto (Raphael Montes)


Raphael Montes é um autor brasileiro que gosto muito, o livro Suicidas (que já falei aqui no site) é sem dúvidas um dos melhores que já li na vida e toda a sua bibliografia até agora é de uma qualidade inquestionável. Com uma habilidade invejável de criar climas de tensão, com personagens controversos e uma violência extrema, seu nome é firmado cada vez mais no gênero suspense e demonstra um avanço notável na literatura popular nacional, que de uns tempos para cá vem revelando muito potencial para lançar novos talentos em um futuro não muito distante.

Jantar Secreto talvez seja o seu livro mais ousado, como se pessoas brincando de roleta russa em Suicidas ou um jovem obsessivo em Dias Perfeitos não fosse o suficiente, dessa vez ele resolve cutucar o leitor com um tema bastante desconfortável: o canibalismo. SIM, GALERA! O livro gira em torno de jovens adultos que estão passando por problemas financeiros (em um retrato muito fiel da realidade brasileira, diga-se de passagem) e vêem nas redes sociais e inovações capitalistas da internet uma forma de ganhar dinheiro. O que seria apenas um convite para jantar na casa de estranhos, tipo couchsurfing*, toma outras proporções quando eles fazem uma brincadeira (sem querer querendo) de que carne humana seria servida no tal compromisso e a ideia bomba de uma forma que eles não podiam imaginar. Esse é o ponto de partida da trama e vocês já devem imaginar o que vem por ai, né?

Com muita escatologia, descrições nada agradáveis e personagens que despertam nossa curiosidade e raiva, Jantar Secreto tem uma história muito bem escrita e desenvolvida, Raphael Montes cria uma trama de suspense que mistura muito bem com a realidade que vivemos no Brasil. Os personagens são pessoas comuns com sonhos frustrados e isso cria um vínculo que vai se desmoronando conforme a história avança e suas personalidades mudam de acordo com as coisas que acontecem. Esse é o maior ponto de Jantar Secreto, os personagens são realistas e confesso que todo esse lance de pessoas loucas que pagam milhares de reais para comer carne de gente morta, não soou tão absurdo assim, afinal, o ser humano é capaz de qualquer coisa, principalmente se ele tem algo que o faça se sobressair dos demais: O PODER.

Ah, essa é outra coisa legal de Jantar Secreto, mostrar o que o poder faz com as pessoas e como elas usam isso em seu favor para aumentá-lo cada vez mais. Misturando uma narrativa frenética e uma história que cresce a cada capítulo, Raphael Montes criou um suspense que vai muito além do que aparenta e levanta questões sobre a moral do ser humano e o que somos capazes de fazer caso tenhamos condições necessárias para exercer. É chocante entrar nessa brisa e notar que boa parte das pessoas desse mundo são capazes de qualquer coisa.

Porém, apesar de todos os pontos positivos, eu acho que pouco depois da metade a história decaiu um pouco e os rumos escolhidos pelo autor foram contra tudo o que foi construído. Parece que a trama perdeu aquele ar chique e se tornou uma coisa suja que destoa muito do início. Perdeu o charme e o grande mistério, sabe? Talvez ele tenha ido longe demais ao explorar novos ares para todo o Jantar Secreto e isso eu não via como necessário, afinal, o choque maior para mim foi ver pessoas comuns cometendo atos extremos e a partir do momento onde ele acrescenta uma conspiração por trás da coisa toda, a trama se perde e termina de uma maneira vazia, que mesmo não despertando algo ruim, ainda me desapontou um bocado. Estava achando tudo muito melhor quando era uma coisa mais simples e menos ”Hollywoodiana”, as 200 primeiras páginas foram incríveis.

Mesmo com algumas ressalvas, Jantar Secreto é um bom livro, com uma história tensa e questões relevantes sendo levantadas, além de ter um suspense incrível que vai agradar em cheio quem gosta do gênero. Podia ser perfeito e quase chegou lá, só espero que na sua próxima obra Raphael Montes seja um pouco menos megalomaníaco no desenvolvimento e foque em uma conclusão mais intimista e menos acelerada para seus protagonistas, afinal, tem duas coisas que ele já provou que sabe fazer: entreter e surpreender. Aqui a surpresa se perdeu depois da metade, mas claro, nem de longe deixou de ser um bom entretenimento 😉


  • couchsurfing: rede social onde pessoas disponibilizam gratuitamente um espaço (ou sofá) de sua casa para os viajantes dormirem.
Victor Piacenti
Editor Chefe | | Também do autor.

Um cara fanático por Stephen King, que sente um prazer imenso ao ver uma cidade sendo destruída na tela do cinema. Além de ser sagitariano, não sabe andar de bicicleta, é viciado em coxinha e acredita (até demais!) em ETs.

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