Logan (Crítica)

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Quando Logan chegou ao fim eu tive vários sentimentos, entre eles, o que pegou mais forte foi a nostalgia. Lembrei de quando eu tinha 10 anos de idade e fui com minha família ao cinema para assistir X-MEN: O Filme. Como toda criança que pirava ao assistir um filme lotado de aventura e personagens legais, sai da sessão anestesiado e permaneci por meses desenhando cada um dos mutantes no final do meu caderno. Apesar do Ciclope ser o que mais mexeu comigo na época, Wolverine não ficava atrás, ele tinha aquela coisa de ídolo, o macho alpha que não tem medo de nada, aquela personificação de herói que cativa a galera. Ele é um cara chato, ranzinza, lotado de raiva, mas que não tem receio de explodir para fazer não só o certo, mas também justiça. Um herói diferente, com características que marcaram a sua personalidade, que mesmo que não seja lá das mais fáceis de compreender, tinha  muito a ser dito e explorado.

Os anos passaram e mais filmes da franquia vieram, uns bons, outros ruins, mas independente da qualidade, algo que talvez tenha se perdido bastante foi a identidade de Logan, depois de dois filmes solo que (pelo menos em mim) não tiveram o impacto desejado, o personagem foi ficando diferente e ao meu ver perdeu um pouco da sua essência. Muitas vezes eu não o reconhecia como aquele ídolo de infância ou o como um cara prestes a explodir, eu queria ver mais daquela personalidade do lobo solitário e galera, sem mais enrolação: DEMOROU, MAS ISSO FINALMENTE ACONTECEU!

Sem se preocupar muito com os acontecimentos dos outros filmes que envolveram Wolverine ou os X-MEN, aqui a história se passa em 2029 e acompanha um velho e cansado Logan que não tá nem aí para o mundo desde que os mutantes foram basicamente extintos. Vivendo uma vida simples e sem muitas esperanças ao lado de Charles Xavier, Logan é surpreendido com a chegada de uma garota cujo os poderes colocarão em cheque toda a sua aparente calmaria e com uma missão que levará sua humanidade ao extremo.

Sinceramente, esse é o filme do Wolverine que estamos esperando há anos para assistir. Violento, intenso e frenético, Logan é tudo o que queremos ver quando pensamos no personagem. Com uma história madura e cheia de reflexões sobre o que se passa na cabeça do cara, o filme nos envolve em uma atmosfera onde tudo pode acontecer; já nos primeiros minutos percebemos que a abordagem será diferente, que há um perigo real cercando o herói e ele não está para brincadeira quando precisa mostrar quem ele é de verdade. Não só no quesito ‘’super’’, mas também como um ser humano, quando suas garras literalmente são mostradas, presenciamos um verdadeiro banho de sangue, com cabeças rolando, membros decepados e gente, sério, é muito bom reparar que resolveram leva-lo a sério, sem maquiar seus sentimentos e tudo o que ele é capaz.

Hugh Jackman demonstra uma segurança enorme em sua interpretação, ele consegue passar para o espectador tudo o que Logan sente, seja a afeição, a dúvida ou a raiva que explode quando menos esperamos. Claro que o roteiro ajuda muito para que ele possa explorar esses quesitos, ainda mais com a chegada de Laura (a maravilhosa novata Dafne Keen), que assim como Wolverine, lida com muitas coisas em seu interior. Juntos eles formam uma dupla que em diversos momentos nem precisam falar nada, com um olhar ou um grito conseguimos compreender o que se passa em suas cabeças e só consigo definir com palavrões como a história de Logan consegue se distanciar completamente dos outros filmes de heróis, sem nos deixar esquecer que estamos diante de um, claro.

Logan é um filme muito diferente, é como se ele se passasse em um mundo invertido à la Stranger Things e mesmo que possa rolar uma confusão sobre sua ‘’linha do tempo’’ com as outras tramas dos X-MEN, ele consegue deixar claro a sua identidade e mostrar um lado mais humano do personagem sem em momento algum deixar de canto o quesito diversão. Eles uniram o melhor de dois mundos, montando uma trama onde até arrisco dizer que leva os filmes do tipo para um outro patamar, afinal, se feitas de uma maneira bem pensada, a diversão e a seriedade podem caminhar lado a lado. Isso ficou claro aqui, mesmo que pudesse ter alguns minutinhos a menos.

No final de Logan eu me senti estranho, digo isso por que finalmente consegui ver um lado B daquele machão ranzinza, cheio de raiva e remorso entalados. Vi um lado que muito provavelmente eu não estivesse preparado para enfrentar e acredito que no fundo eu não quisesse entender Wolverine, talvez eu quisesse continuar como aquela criança deslumbrada com um super-herói e é muito difícil ter essa ilusão quebrada, não que seja ruim, muito pelo contrário. Assim como Wolverine, eu ‘’envelheci’’ e percebi que nem sempre estamos prontos para as surpresas que a vida nos reserva, quando os créditos subiram eu constatei que não estava preparado para nada disso e que mesmo com muitas diferenças, nós não somos muito distantes dele, nós somos seres humanos e um pouquinho mutantes. Não é fácil reconhecer os nossos limites e muito menos compreende-los, Wolverine me mostrou isso de uma forma inesperada… e caros leitores, não sei vocês, mas mesmo com um aperto no coração, eu serei muito grato por isso.

Victor Piacenti
Editor Chefe | | Também do autor.

Um cara fanático por Stephen King, que sente um prazer imenso ao ver uma cidade sendo destruída na tela do cinema. Além de ser sagitariano, não sabe andar de bicicleta, é viciado em coxinha e acredita (até demais!) em ETs.

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