Lugar de mulher é no… CINEMA!

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Pense em personagens femininas no cinema. Agora tente se lembrar de alguma não estereotipada como frágil, indefesa ou sem controle emocional. Ou mesmo se em torno da heroína há uma figura masculina ou uma história de amor envolvida. Isso é um reflexo do papel da mulher na indústria cinematográfica, por ainda faltarem mulheres em cargos de liderança, as histórias contadas são superficiais, clichês e irreais. Atualmente, assistir a qualquer filme e reconhecer um personagem protagonista feminino não estereotipado ainda é um desafio. Ainda ansiamos por mais representatividade feminina no cinema e em tantas outras áreas…

Porém, temos que concordar que os últimos anos nos presentearam com personagens que chegaram com o pé na porta quebrando paradigmas de mocinhas indefesas e dando reviravoltas nesse sistema patriarcal falido.  Quantas Furiosas, Uhuras, Reys e Dianas tem se criado na cultura pop?

Só no ano de 2015 tivemos o retorno de duas grandes franquias do cinema: Mad Max e Star Wars. E as duas trouxeram protagonistas femininas para a trama! Sim, o ~males tears~ foi livre, muito ranho, ranger de dentes e desespero rolando, pois dois dos melhores blockbusters daquele ano teve duas ótimas protagonistas femininas, a Imperatriz Furiosa de Mad Max e a Rey de Star Wars. Foi um ano incrível para as mulheres, começar o ano com Furiosa e terminar com Rey. Ainda mais que em tempos de um cinema superficial e fácil de mastigar, o diretor George Miller deu uma aula de narrativa e provocação em um dos maiores filmes de ação de todos os tempos.

Na franquia, Max Rockatansky era o típico herói machão dos filmes dos anos 80 e completamente celebrado justamente por isso. Apesar de ter perdido a sua família e ter sofrido um bocado, ele era o guerreiro auto-suficiente que poderia resolver todas as suas questões sozinho. Esse ~padrãozinho~ é muito comum nos filmes de ação e sempre criou uma grande pressão social por ser um modelo perfeito de masculinidade a ser seguido e desejado. Já em Mad Max: Estrada da Fúria esse padrão é quebrado e é maravilhoso porque Max não está sozinho e nem é capaz de resolver tudo ao mesmo tempo. Ele faz uma dupla incrível com a Imperatriz Furiosa, tanto na resolução de problemas quanto na hora da pancadaria. Ambos salvam suas vidas em pé de igualdade e tem seus talentos de sobrevivência unidos para o mesmo propósito. E quer saber o melhor de tudo? É que se trata de uma parceria sem tensão sexual alguma e sim uma parceria de missão, sem segundas intenções!

Estrada da Fúria não é daqueles que colocam as mulheres em um papel secundário em que elas dependem de um homem para conseguirem sua independência ou liberdade, pelo contrário, muitas vezes Furiosa faz coisas que Max não consegue fazer, e na minha opinião é a parte mais legal do filme. Max acompanha a fuga de Furiosa por acaso e um dos melhores momentos do filme é quando eles percebem que não dá para serem inimigos e se entreolham como quem diz “tamo junto”. Ele a trata como uma igual. É algo refrescante de se ver em um filme, os personagens femininos são um exemplo das mulheres do nosso mundo moderno, mulheres que tem atitude e iniciativa. Todas elas lutam por sua sobrevivência e não há muito espaço para romance, elas podem lutar por ideal comum sem se preocuparem com situações românticas a serem cumpridas.  A própria Charlize Theron em entrevista falou sobre a criação e importância da Imperatriz Furiosa. Segundo a atriz, o conceito era criar uma personagem que estivesse à altura de Max.

“Ela é alguém tão forte quanto ele em combate, alguém que possa sobreviver tão bem quanto ele. A guerreira da estrada definitiva. Havia algo nela que simplesmente se posicionava contra aquilo e dizia, não”, afirmou.

É igualdade de gêneros que estamos mostrando aqui.

Porém, se tratando também de blockbusters hollywoodianos, até que ponto é possível que Hollywood, uma indústria comandada por homens brancos, ricos e conservadores, produza filmes com empoderamento feminino evidente? Para muitas pessoas não há nenhuma revolução nisso, mas para muitas mulheres que cresceram gostando de filmes de ação ou que na solidão nerd só tinham a Princesa Léia e Nyota Uhura para se apoiar, as mulheres de Mad Max podem fazer a diferença para a geração atual de jovens quando pensarmos em representatividade no cinema. E falando em representatividade no cinema… O samba na cara veio mesmo quando foi anunciado uma protagonista feminina para a saga de Star Wars, cuja maioria da fanbase é composta por homens.

Sim, meus amigos, Rey é uma mulher. E sim, Rey é uma Jedi. Aceitem. Talvez algumas pessoas não compreendam novamente, mas uma personagem como Rey dá oportunidade de todas as fãs também se sentirem representadas. De fato, antes de Rey existia Léia que é um ícone da cultura pop, além de ser um dos poucos personagens femininos de grande importância nos primeiros filmes da saga. A princesa Léia interpretada por Carrie Fischer quebra os padrões que geralmente são impostos as personagens do tipo “princesa”: ela luta, não se esconde ou depende de homens e participa das tomadas de decisões importantes nas histórias da saga. Mas Rey traz um diferencial, ela é a protagonista agora e traz uma representação mais concreta, não só o que as meninas dessa geração precisam e procuram, mas representando o feminino como um todo. É humana, é igual, tem suas nuances de altos e baixos, enfim… É um ser humano, é uma mulher.

Sair imensamente feliz e emocionada de uma sala de cinema, não só por assistir um filme sensacional, mas por sentir que tivemos voz ali – isso, em absoluto não tem preço, ver que agora mais do que nunca as mulheres tem espaço e voz no fandom de Star Wars é algo incrível. Nos tempos em que se discute a inserção da mulher na cultura pop, ter Rey como uma protagonista forte vai ficar definitivamente marcado na história.

Assim como Léia, outra princesa que quebra os padrões impostos as personagens do tipo “princesa” é a maravilhosa Elsa, de Frozen, uma princesa que veio como um divisor de águas e marcou o modo que a Disney tratava suas princesas. Com um príncipe que é tudo, menos encantado, Elsa não sofre por um príncipe, tão pouco quer um. Uma personagem com medos e fragilidades, uma rainha que mesmo tendo todos os motivos para ser má se mostra bondosa e sábia, ciente de tudo que é capaz e dona de um bom senso incrível. Elsa é uma mulher que só quer ser bem resolvida com ela mesmo e viver em paz.

Frozen ainda traz um desfecho que quebra os padrões estabelecidos por Branca de Neve e os Sete Anões (1937) criado há mais de setenta anos pela Disney, esse longa é, acima de tudo, uma marca da influência feminista nos tempos modernos hollywoodianos. Não só do movimento, mas da mulher mesmo, que não se difere mais da antes heróica e máscula figura do salvador do dia. Anna não precisa do beijo de um homem ou do braço forte de um para salvar. Elsa, assim como Anna também pode ajudar sua irmã por conta própria. E melhor, são pessoas que através do respeito e do tratamento de igual para igual acaba sendo um verdadeiro exemplo a ser seguido pelas milhões de crianças da platéia. De certo modo, esse que é o filme do gênero de maior sucesso de todos os tempos contribui para a formação de todo uma nova geração de mulheres fortes e independentes e de homens menos opressores e mais conscientes, como as figuras masculinas também representadas nessa animação.

Sem dúvida é um saldo muito positivo que mulheres tenham papéis de destaque em grandes produções como essas e o sucesso financeiro desses filmes podem ajudar a dar sinal verde a outros blockbusters com personagens femininas de maiores destaques, pois os grandes meios de comunicação se transformaram em uma eficaz ferramenta de propaganda ideologia ao longo do século XX. As histórias em quadrinhos norte-americanas, por exemplo, contribuíram consideravelmente na disseminação de um nacionalismo ufanista durante um período de grande impasse econômico. É o poder da mídia mostrando sua força então por que não usá-la também para a igualdade de gênero tão sonhada?

Falando em quadrinhos, a Mulher-Maravilha, a primeira heroína a ser sucesso de vendas, foi produto de uma mitologia aliada a preceitos feminista e um momento histórico. A personagem é um dos símbolos do feminismo, tanto da época como na atualidade. O visual criado para a Mulher-Maravilha não tem uma relação em tornar a personagem um símbolo sexual: Princesa e Embaixadora das Amazonas da Ilha Themyscira, filha da rainha das amazonas, Hipólita, a Mulher-Maravilha (que tem várias nomeações quase que uma Khaleesi da vida) se veste como uma verdadeira guerreira grega.

O objetivo principal da personagem era vir ao mundo comum (também conhecido como “mundo dos homens”, já que não existem moradores do sexo masculino em Themyscira) para propagar a paz, defender a verdade e trazer boa relação entre deus e mortais. Quer melhor objetivo que isso? E ainda contando com super-força, resistência, velocidade, braceletes indestrutíveis e o laço da verdade, a Mulher-Maravilha tinha tudo para ser um grande sucesso. E conseguiu.

De 1975 a 1979, saiu dos quadrinhos e foi transportada também para a televisão em uma aclamada série de TV conhecida pelo grande público, onde era interpretada por Lynda Carter. Nascida em 1951, onde quadrinhos do tipo eram considerados coisas de meninos (mesmo estes protagonizado agora por mulheres), a atriz era apaixonada pelas histórias da guerreira amazona. Viu o que eu quero dizer quando falo de “representatividade” na cultura pop?

Unida ao Batman e Superman, a Mulher-Maravilha se tornou a personagem mais famosa da editora, tendo papel fundamental e igualitário na Liga da Justiça. Depois disso, surgiram diversas outras adaptações, série animada da Liga da Justiça, filme animado da Mulher-Maravilha onde ela enfrentava a ameaça do Deus da Guerra, Ares, e inúmeras outras tentativas de continuar transpondo a Mulher-Maravilha na grande mídia. Até que, tcharam, em dezembro de 2013, Gal Gadot foi escolhida para viver a personagem em Batman V Superman! E na estreia do filme não se falava em outra coisa… a nossa Mulher-Maravilha roubou a cena e, mesmo que tenha sido apenas uma participação, deixou todo mundo ansioso para seu filme solo.

A atriz Gal Gadot, nascida em Israel, tem uma história interessante. Ela foi escolhida como Miss da região em 2004, parou nas quartas de final para Miss Universo e serviu por dois anos nas Forças Armadas (em Israel, o servido é obrigatório para homens e mulheres). Inclusive, devido ao tempo que serviu no exército, Gadot dispensa dublês na maior parte de suas cenas, principalmente quando elas exigem andar de moto (uma das paixões da atriz). Após esse período, iniciou um curso de Direito, mas abandonou logo em seguida quando foi procurada para ser Bond Girl em 007 – Quantum of Solace, a atriz perdeu o papel para Olga Kurylenko, mas recebeu uma recomendação para participar do elenco de Velozes e Furiosos. E voilá, as coisas começaram a acontecer. Mesmo com uma carreira cinematograficamente curta, a atriz foi perfeita para o papel por sido a Mulher-Maravilha de sua própria vida! QUE FOFA!

E é essa a bandeira que Gadot levanta, para que as mulheres de todas as idades usem a Mulher-Maravilha como um espelho, que se sintam fortes, poderosas e capazes independente da situação que está enfrentando. Mas claro que, tudo isso não foi o suficiente para impedir o ódio de algumas pessoas, críticas surgiram aos montes na internet, desde “ela não é americana” até “ela é muito magra e tem seios pequenos demais para interpretar a Mulher-Maravilha”. Como se isso fosse uma obrigação para a personagem. Alôu? Não é disso que a história dessa heroína se trata.

Parte da intensa massa crítica produzida ao longo de décadas de reflexões sobre a importância do papel da Mulher-Maravilha foi absorvida pela produção da Warner Bros, proprietária da DC, para repaginar a personagem e dar mais força ainda nessa era de feminismo e empoderamento feminino que tem ganhado força, jogando luz para voz do movimento e colocando em debate sua importância de igualdade cada vez mais.

Gal Gadot, Patty Jenkins e Lynda Carter

Além de tudo, o filme é dirigido por uma mulher, a diretora Patty Jenkins (tem mais representatividade chegando por aí!). Pelo que vimos até agora, a história longa deverá destacar o contraste entre o poder real representado por uma mulher semidivina, capaz de levantar tanques e o papel submisso imposto à mulher nas convenções sociais da década de 1910 – a nova produção enfoca a Mulher-Maravilha lutando na Primeira Guerra Mundial e traz um elenco forte, com os nomes de Robin Wright e Connie Nielsen (Chris Pine também está no filme como Steve Trevor, mas o foco aqui são as mulheres, beijos). Nos quadrinhos, Diana quase sempre foi parar no famigerado “mundo dos homens” enviada como embaixadora. Nos cinemas, a Mulher-Maravilha, que estreia na próxima quinta-feira, é ela própria a representante de um momento em que uma nova geração de leitoras e fãs de cultura pop não precisa da licença de ninguém para ter voz e ocupar seu espaço.

Então, que venham mais e mais filmes, séries e narrativas diversas, que incluam minorias e façam com que cada um reveja sua maneira de pensar corpos, cores e afetos!

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”Mulher Maravilha” irá incomodar aqueles que vivem de passado e ódio.

Jessica Crusco
Colaborador | | Também do autor.

Jessica Crusco é formada em RTV, pós graduada em cinema, mestra em bad vibes e doutora em problematizar. Frustrada por saber que não irá conseguir assistir todos os filmes de sua lista de 'quero ver' antes de morrer.

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