Manchester À Beira Mar (Crítica)

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O que dizer de um filme que trata sobre a inconveniência do luto de uma forma tão pura e melancólica? O que dizer de um filme que tem o antes desprezado, irmão do Ben Affleck, Casey, agora queridinho do elenco e saber que ele pode levar o Oscar de melhor ator por sua performance?

Manchester À BeiraMar vem repleto de indicações nas premiações por esse mundão de Meu Deus, com 8 indicações no CriticsChoice Awards, 5 indicações no Globo de Ouro, mais uma porrada de indicações em premiações de cinema independente como o British Independent Film Awards, o Independent Spirit Awards e até mesmo na famosa cerimônia anual de cinema, o famigerado Oscar™.

Esse drama estadunidense de desgraçar a cabeça conta a história de um encanador (Casey Affleck) introspectivo e despreocupado que se vê forçado a voltar para a sua cidade natal depois de descobrir que seu irmão (Kyle Chandler de “Friday Night Lives”, em atuação carismática que merecia maior reconhecimento) faleceu, vítima de uma doença cardíaca crônica. Ao chegar lá, ele começa a estabelecer uma relação de cuidado com o seu sobrinho adolescente, Patrick (Lucas Hedges), que perdeu o pai. Além do rapaz se ver indicado como tutor do sobrinho, ele também é obrigado a voltar à Manchester, cidade da qual ele guarda tristes memórias e se envolve cada vez mais na resolução de segredos trágicos do seu passado.

Confesso que assistir Manchester A Beira-Mar no cinema foi uma experiência singular. A melancolia expressada na tela me afetou profundamente a ponto de sair da sala deprimida e voltar pra casa triste pensando no filme. O protagonista, Lee, causa um estranhamento no início do filme que me deixou com várias interrogações quanto a atuação de Casey Affleck, mas é ao desenrolar da trama que você consegue entender o personagem e sua jornada a ponto de não restar dúvida quanto ao ser um dos indicados ao Oscar de Melhor Ator, pois o que ele entrega nesse filme é uma melancolia dura e magnífica de se encher os olhos. E ao trabalhar dessa maneira contida, Casey simplesmente mostra que, muitas vezes, o menos é mais. Em especial em arte e, sobretudo, quando estamos tratando de temas sombrios como o luto e paixões delicadas.

O irmãozinho do Ben Affleck injeta em seu personagem um ar letárgico, melancólico e torporoso que é justificado gradativamente de acordo com seus flashbacks, o nível de sofrimento desse homem é insuportavelmente febril e intenso, a ponto de ele mal conseguia falar em alguns momentos, a melancolia já se faz presente só no seu tom de voz, na forma de olhar para o vazio, na forma de respirar antes de falar alguma coisa. A construção é bonita, é um personagem bem ambíguo que jamais superou um trauma do passado e leva a vida sem razões para viver, sem jamais ser o vilão ou envaidecido por suas ações, é um homem comum, humano.

Ainda sobre atuações, vale destacar o excelente Lucas Hedges que é ótimo em não deixar que o filme se torne um melodrama tão pesadíssimo, conseguindo ser engraçado, sensível, e intenso quando cada adjetivo se mostra necessário. E também a maravilhosa da Michelle Williams que tem uma cena em especial que destrói o coração de qualquer um. Dá vontade de chorar só de lembrar da situação. Cá entre nós, eu nunca vi um filme com a Michelle Williams onde ela é feliz? A coitada sempre é sofrida. Mas enfim, existe uma carga emocional entre todos do elenco que chega a ser palpável, tudo graças aos bons diálogos e a boa química dos atores.

É um filme sim, melancólico, realista e aflitivo mas sem deixar de ter seus momentos divertidos. São adultos agindo como adultos (quer dizer, fazem besteira, birra e outros comportamentos que a gente finge serem exclusividade das crianças, risos). Os adultos do filme jamais tem diálogos como se estivessem dando lições de maturidade e vivência. É aquela coisa, você cresce e descobre que não existem adultos.

A trilha sonora é incrível, quis sair do cinema e ouvir deitada em posição fetal, é pungente, cáustica e bafora uma aura mórbida no seu ouvido ao tom da narrativa, que abre contemplações sobre luto, culpa, perda, saudades, dor, depressão, superação e libertação. Se tem um meme para esse filme certamente seria “a solidão me fez emo & gótica” porque a jornada de Lee e Patrick nos faz refletir mais sobre a morte, como lidar e a responsabilidade de uma família. Esse é realmente um filme sobre as consequências de não conseguir (se) perdoar e uma demonstração dolorosa do que acontece quando a dor do luto esmaga o peito e nos tira o fôlego. Nietzsche dizia que se você olhar muito tempo par ao abismo, eLe tE oLhA dE vOLtA. É ao voltar para aquela cidade e se deparando novamente com seus próprios abismos internos, que Lee se vê escorregando em direção a um abismo que pode, decisivamente, engoli-lo de vez.

Eu sabia que esse filme ia doer, mas não estava preparada para ser atingida de forma tão pessoal. Portanto, aos que perderam alguém querido, não sei se recomendaria esse filme. Depende muito da forma que você lida com a dor do luto. Para mim foi difícil de assistir e, por muitas vezes, fiquei agoniada onde só queria levantar e ir embora porque eu estava sentido muito mais do que conseguia aguentar. Acredito que, entender a atmosfera amarga do filme em sua totalidade vai depender do quão próximo dessa realidade mórbida o espectador está ou já esteve alguma vez.  E não, não estou dizendo que o filme “não é para todo mundo”, pois essa é uma expressão presunçosa e rasteira demais para se dar sobre um filme. Maaaaaas, porém, no entanto, todavia, creio fortemente que o atual momento de vida de quem assistir esse filme será crucial para que se consiga capitar toda a consternação dos personagens.

Estar no mesmo estado de angústia que os protagonistas, te fará compreendê-los num outro nível. Ou faz o seguinte, deixa sua empatia o mais aflorada possível e se entrega para a situação que o filme te coloca porque é inevitável, meu amigo, um dia ela vai chegar. Mas calma, também não é o tipo de filme que vai te arrancar lágrimas com cenas melodramáticas ou qualquer recurso narrativo baratíssimo que geralmente são usados para arrancar lágrimas do espectador em momentos pontuais, o roteiro aqui não te oferece maniqueísmos ou quetões fáceis. A grande questão desse filme reside mesmo é na sutileza de um roteiro extremamente humano e nas reflexões que ele nos traz. À medida que uma certa melancolia generalizada se instala na trama, se torna inevitável não ficar pensando sobre a solidão e suas faces mais aterrorizantes, não somente a dos personagens, mas a nossa própria.

Se engana quem espera que a história vá por um caminho mais ortodoxo. Brincando com o simbolismo dos nós náuticos usados no barco da família Chandler, a mensagem do roteiro é sensata e realista ao mostrar que alguns traumas simplesmente NÃO SÃO SUPERADOS, assim como alguns não são possíveis de desvelar. Pesado.

A fotografia de Manchester A Beira-Mar também é um show à parte, acompanhando seu clima melancólico ela é anuviada, pálida, gelada, chuvosa e flerta rigorosamente com as feridas do protagonista através do seu ponto de vista. Repleto de momentos silenciosos que retratam a apatia do personagem de Affleck, o texto caminha por um novelo embaraçado de nós psicológicos e emocionais que impedem o rapaz de relacionar-se intimamente com qualquer pessoa. Na minha humilde opinião, o Casey Affleck mereceu a indicação ao Oscar por esse trabalho, um dos atores mais subestimados aí fora. Fora os outros nomes poderosos em entorno desse filme, ele tem tudo para continuar fazendo sucesso nas premiações.

Seu diretor é experiente em roteirização, já tendo sido indicado ao Oscar na categoria duas vezes por Gangues de Nova York e Conte Comigo. Aliás, um dos maiores trunfos aqui está justamente na linguagem como o diretor decidiu contar a história, tem dilatação do tempo, idas e vindas de maneira tão sutil quanto o ritmo do filme, além da excelente construção de seus personagens, especialmente de Lee. Vemos isso perfeitamente na cena do necrotério do hospital, toda centralizada em Casey Affleck diante do corpo do irmão, sendo também preenchida por um mal-estar que todos parecem sentir ao seu lado. Logo descobrimos que seu personagem é rodeado pela morte, mas para além desse ar trágico de sua biografia, há o sofrimento humano de um homem que, diante da incapacidade de superar o luto, se abandona ainda em vida.

Por fim, é aquele ditado “Há males que vêm para o… mal” porque Manchester À Beira-Mar desvirtua a frase feita e é tudo isso mesmo que andam elogiando. Justifica os clichês elogiosos: um drama sobre perdas comovente e eventualmente cômico e sim, muito, muito bonito. Mas também é um filme cru, sombrio e desolador que mostra as pessoas lidando com sofrimento de forma mais honesta que eu já vi. O sentimento transpassado é de que, por mais sem sentido, letal e destituída de alegria que a vida tenha se tornado, ela não para nem desacelera para ninguém. De uma forma ou de outra, mesmo em meio à dor, temos que seguir em frente.

A lição que fica desse filme é que, eventualmente, a vida tirará algo de você. Somos invadidos pela sensação de autorreflexão quase involuntária de que a vida é difícil para qualquer um e esse mundo realmente num tá fácil para ninguém. Uma história pequena, mas devastadora que faz você sair com um gosto amargo na boca após acompanhá-la porque é emocionalmente carregada e conduzida por um tom bem minimalista, trazendo um filme que deixa uma quantidade terrível de tristeza no peito ao mesmo tempo que pode te fazer sair do cinema se sentindo mais vivo e mais grato, apesar da tragédia que acabou de assistir porque o cinema tem dessas dualidades e é feito para valorizar as experiências humanas assim como são retratadas nesse filme.

Jessica Crusco
Colaborador | | Também do autor.

Jessica Crusco é formada em RTV, pós graduada em cinema, mestra em bad vibes e doutora em problematizar. Frustrada por saber que não irá conseguir assistir todos os filmes de sua lista de 'quero ver' antes de morrer.

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