Moonlight – Sob a Luz do Luar (Crítica)

Existem filmes que são feitos não para chocar, mas simplesmente mostrar a realidade das coisas, de como elas funcionam e como isso transforma de alguma maneira. Se esse filme é um desses, apenas quem assistir será capaz de dizer, pois para mim foi um modo de demonstrar como as situações da vida podem ser capazes de alterar uma pessoa.

A história acompanha a vida de Chiron, ou Little como é chamada a primeira parte do filme. Um garoto introspectivo, de poucas palavras e transparece em seu olhar toda a essência de sua alma. O pequeno Alex Hibbert brilhantemente interpreta aquela criança, que apesar de tão nova já enfrenta muitas dificuldades; como a convivência com sua mãe dependente química, a descoberta sobre sua orientação sexual (ou confusão em sua cabeça por não saber o que isso significa) e o bullying de seus colegas na escola por ser diferente dos outros.

Hibbert como dito acima, faz algo memorável e não tem como não sentir o que se passa com aquele garoto, que apesar da pouca idade leva uma vida conturbada por conta da sua situação. Seus olhos negros falam bem mais que muitas palavras que por ele são ditas. Todo o seu mundo é fascinante aos olhos de quem assiste e muito triste também.

Sua mãe, interpretada por Naomie Harris, em um papel forte, intenso e muito bem interpretado, que da raiva de ver e não sabemos até que ponto existe amor e loucura naquela mulher. O ator Mahershala Ali interpreta uma espécie de lado paterno de Chiron e entra em sua vida para dar todo carinho e compreensão que ele precisa, junto de sua esposa interpretada pela cantora norte-americana Janelle Monáe, que poderia ser a mãe que aquela criança tanto necessitava – apesar de ser um chefe do tráfico local.

Na minha humilde opinião, Hibbert é a melhor interpretação do personagem, que se transforma com o passar do tempo e espero sinceramente ver esse jovem ator futuramente e também seu amadurecimento, porque realmente é ele um dos pontos altos do filme.

Na segunda parte do filme intitulada com o nome do personagem, Chiron, passamos para sua adolescência, onde o bullying continua como consequência da sua infância mal estruturada, onde é interpretado por Ashton Sanders. É nessa fase que vemos um dos poucos, ou porque não dizer o único amigo de Chiron, que o acompanha desde sua infância. O personagem interpretado por Jharrel Jerome (que fica responsável pelo alívio cômico e muito bem utilizado no filme) é com quem o garoto define realmente o que sente em questão a sua sexualidade.

A relação dos dois é tão simplória que o torna um dos poucos que deixa Chiron a vontade, a ponto de fazê-lo esquecer sua vida triste, mas, infelizmente, nessa fase temos alguns fatos que foram deixados de lado, como a morte de um importante personagem e como o protagonista administra essa informação. No desfecho dessa fase vemos a transformação radical do personagem, por não aceitar a situação até ali imposta.

Na terceira e última, mas não menos importante fase, intitulada Black – apelido dado pelo personagem de Jharrel – vemos a transformação do personagem por completo; hoje na vida adulta e como chefe do tráfico, sem vestígio da criança ou adolescente que conhecemos. Bom, sem entregar muito sobre essa terceira fase, para não estragar o final do filme, mas temos aqui uma das melhores cenas, quando Black tem uma longa conversa com sua mãe, marejando os olhos de quem assiste. Por falar neles, o que nos deixa mais impressionados e já foi dito… é o olhar. Os três atores escolhidos para interpretar Chiron são facilmente identificados pelo mesmo semblante, a mesma tristeza e os mesmo olhos que falam mais que palavras.

Não podemos esquecer um dos personagens secundários mais importantes, a ambientação. O local onde a história se passa é algo que não estamos acostumados a presenciar nesse tipo de filme e também o que deixa a história mais interessante. É quando podemos observar que em todos locais e com qualquer pessoa pode ocorrer algo que não esperamos. Acredito que um dos poucos problemas do filme está no desaparecimento de alguns personagens, que acabamos tendo simpatia e tem total importância na vida de Chiron e no seu amadurecimento como pessoa. Tirando esse deslize, o filme é lindo e tem a capacidade de emocionar, cumprindo muito bem esse papel e realmente sendo merecedor de toda luz que seu título carrega.

Thiago Martins

29 anos, formado em Administração, atualmente estudante de Arquitetura e Urbanismo e só Deus sabe qual será a terceira. Apaixonado por filmes, séries, livros, HQs e tudo mais que me leve para outro mundo. Sofro de Coulrofobia (medo de palhaço) e seres rastejantes. Espero um dia ver todos os livros que gosto, retratados em bons filmes. Como um bom nerd, sonho em conhecer o Stan Lee.