Browse By

Não é mais uma lista sobre #GIRLPOWER

Elas podem ser mulheres cruéis, tirânicas, assassinas, mas também podem ser só meninas destemidas e poderosas. Mulheres inspiradoras, empoderadas, que fazem o que tem vontade, conquistam com bravura o que se propõe a fazer, mulheres que são comuns que batalham dia-a-dia. Mulheres que não são representadas como vítimas, não são objetos de cena, nem estão ali só servindo de escada para algum outro personagem.

Se antes as mulheres precisam ser mocinhas doces e fofas na arte, hoje a gente nota certo estereótipo da protagonista feminina que não falha, que não hesita, que luta, que escala, que é gata e blá-blá-blá… Isso não é uma grande evolução, mas é um jeito de personificação diferente. Por isso que essas personagens são tão interessantes, elas não são modelo do que uma mulher deve ser, elas não são estandarte de comportamento, nem símbolo de algum movimento, elas só são… pessoas. Algumas são condenáveis, algumas tem falhas, algumas são verdadeiras sociopatas, mas são só pessoas. Diversidade de verdade na ficção só vai acontecer quando as personagens femininas puderem ser: só pessoas. Sejam elas ótimas, incríveis e fofas ou sejam elas terríveis e horríveis. Notícia chocante: Hollywood não sabe como escrever personagens femininas, mas às vezes até acerta e é desses acertos que vamos tratar aqui com algumas personagens conhecidas ou desconhecidas dos estilos mais variados da cultura pop.

Annalise Keating
Algumas décadas atrás era possível contar nos dedos as séries com protagonistas mulheres (e as com protagonistas mulheres fodas e bem construídas, então, era possível contar só nos indicadores), porém, gloriosamente o mundo está mudando e elas são cada vez mais comuns, How to Get Away with Murder chegou para entrar no time dessas séries com protagonistas maravilhosas. Essa série da ABC conta a história da professora de Direito Penal, Annalise Keating, que dá uma cadeira concorridíssima e escolhe os melhores alunos para trabalhar com ela em seu escritório. É impossível não assistir um episódio e não sair contagiada pela força dessa personagem. Ela é encantadora para seus alunos, empregados, amantes e para nós. Até quem odeia ela não consegue parar de pensar nela. Annalise me cativa muito mais porque é, afetivamente, independente. Ela não é uma heroína no sentido original da palavra, mas gente, como é bom uma personagem mulher cuja vida não gira em torno de ~um amor~.

A personagem rendeu o Emmy de melhor atriz para Viola Maravilhosa Davis. Além de Annalise, que é uma mulher negra, bem sucedida, focada na carreira e não no amor, a série ainda tem muitas outras personagens mulheres que são TODAS complexas e interessantes e maravilhosas, cada uma ao seu jeito de ser. Talvez, o que mais devemos agradecer a Shonda Rhimes, seja isso de ter trazido muitas mulheres para a televisão, e isso, meus queridos, é dar o famoso lugar de fala.

Kim
Todo mundo que lê a HQ ou assiste ao filme de Scott Pilgrim pira na Ramona Flowers. Eu entendo. Ela é daora, misteriosa, zoeirona, tem cabelo de várias cores e trabalha no subespaço. São qualidades realmente cativantes, mas nada disso nunca foi o suficiente para mim. Quem me chamava atenção era Kim Pine. Ela é engraçada, não causa tretas (mesmo que não goste da outra pessoa) e não cai em nenhuma caixinha que colocam pra ela. A Kim usa salto e tênis, faz os próprios vestidos e também sai de moletom, ela é baterista de uma banda com os amigos dela e, no fundo, tudo o que ela quer é encontrar uma motivação para as coisas. Assim como eu ou você… Ela é uma pessoa como outra qualquer. Ela tem um trabalho, amigos, projetos que não tangem a vida do Scott e conta isso pra todos. A Kim teve outros namorados que o Scott nunca soube. Sua vida não gira em torno da história principal, não gira em torno do Scott. Ela se recusa a entrar nas histórias complexas de lutas contra ex-namorados do mal, vai embora quando o rolê está chato, fala o que acha mesmo. Por que raios ela iria se meter em coisas que não gosta? Por que raios ela iria concordar com situações absurdas? Só porque um amigo se meteu em um rolo gigantesco não significa que você tem que concordar com ele e apoiá-lo. Basicamente: Kim Pine não é obrigada e sabe disso. Ela nos lembra o tempo todo que nossa história gira em torno de nós mesmas. Todo o resto é que é secundário.

Bellatrix
A Diva das Trevas! Senhora Que Não Deve Ser Nomeada! E… Assassina de Personagens Favoritos: Bellatrix Lestrange. Louca. Insana. Autêntica. Ao longo da saga, a Comensal da Morte foi apresentada como uma bruxa que não se importava com ninguém. Há certas nuances da personagem que os que a odeiam não conseguem ver, nem muito menos captar. Por mais que essa doida varrida amasse ter sangue em suas mãos, ela nunca escondeu que, de um jeito distorcido, era uma mulher preocupada. Não só com os afazeres de Comensal da Morte, mas com Narcisa Malfoy. Eis a magia que sempre capto em histórias que envolvem irmandade: a mais velha protege a caçula, há sororidade entre essas duas mulheres.

Os sete livros e oito filmes da saga de Harry Potter têm personagens femininas poderosas aos montes, todas com personalidades definidas e papéis relevantes na narrativa. Mas algumas dessas deusas, loucas e feiticeiras não ganharam muito destaque na trama e acabaram esquecidas até pelos fãs da saga, mesmo tendo histórias fascinantes. E por mais que muitos odeiem a Bellatrix, ela foi uma das representantes do GIRL POWER no desenrolar da saga. O que a torna uma Comensal de valor é justamente o fato dela ter feito mais que muito macho, a bruxa era a única mulher dentro de um grupo formado por um bando de incompetentes do sexo masculino. Se formos dividir os Comensais em equipes, é fácil imaginar que Bellatrix era a mais requisitada porque os homens que queriam provar algo ao Lorde sabiam que isso só seria possível tendo ela como companheira de crime. Tenho certeza que Lucius se regozijou durante a ~tramoia~ no Ministério da Magia, mas caiu do cavalo. A burrice masculina se estende ao Rabicho, ao Crabbe e ao Goyle pai e assim por diante. Não sei como o Voldemort suportou essa galera.

Bellatrix é geniosa, atrevida, maluca e não tem vergonha de ser o que é. Mesmo como vilã, ela apresentou durante a saga uma tremenda personalidade, ainda mais por ser “a garota do mal”. Por mais que a causa dela tenha sido maligna, o que se tira de bom é a autenticidade da personagem. A atitude. A vida sem amarras que, na época em que ela nasceu, não era tão permitida porque os casamentos eram arranjados. A Comensal se afundou naquilo que acreditou. Todo mundo faz isso. A diferença é apenas a causa.

Furiosa
Furiosa (Charlize Theron) lidera um grupo de mulheres que lutam para fugir de um tirano cruel em um mundo pós-apocalíptico, no filme Mad Max – Estrada da Fúria. As mulheres que Furiosa resgata também são decididas a não servirem mais apenas para fins reprodutores. O filme não é daqueles que colocam as mulheres em um papel secundário, em que elas dependem de um homem para conseguirem sua independência ou liberdade, pelo contrário, muitas vezes Furiosa faz coisas que Max não consegue fazer, e na minha opinião essa é a parte mais legal do filme. Mad Max acompanha a fuga de Furiosa por acaso e um dos melhores momentos do filme é quando eles percebem que não dá pra serem inimigos e se entreolham como quem diz “tamo junto”. Ele a trata como uma igual. É algo refrescante de ver em um filme, os personagens femininos são um exemplo das mulheres do nosso mundo moderno, mulheres que tem atitude e iniciativa. Todas elas lutam por sua sobrevivência e não há muito espaço para romance no filme, elas podem lutar por um ideal comum sem se preocuparem com situações românticas.

Kat Stratford
Kat Stratford representa a rebelião, tanto em termos de estilo quanto em sua existência. Seguidora do movimento Riot Grrrl, Kat é uma verdadeira feminista e raro são os casos em que temos uma personagem que se identifica abertamente como feminista e não é encaixada à força no estereotipo da “feminista espantalho”. Kat consegue esse feito, mas aí a gente lembra que o filme é uma adaptação de Megera Domada de William Shakespeare, e que, sim, claro que Kat é a megera e que, sim, claro que a megera moderna tinha que ser uma feminista, embora ela não seja exatamente domada pelo Heath Ledger no final. Ainda assim, o filme consegue trazer uma crítica social e representou um avanço no que se referia ao gênero ao trazendo uma protagonista declaradamente feminista – e isso, num filme adolescente, significava e ainda significa MUITO. Aliás, por sua Kat, Julia faturou o prêmio de Revelação no MTV Movie Awards de 2000. Essa personagem é a Rainha Mãe do mantra tô-de-boa-das-suas-merdas. Ela arranca pôsteres do baile de formatura das paredes da escola. Ela sua como um porco (“e você não?”), chuta o saco dos abusados e denuncia professores. Kat foi um farol de esperança para as pessoas de 9 anos como eu que, ao ver um filme para maiores de 12 no cinema, percebeu que o feminismo era uma coisa real e palpável, e que é possível combinar uma blusinha camuflada com um colar de pérolas. E ao contrário da crença de Joey Donner e Cosmo, o look Rambo dela não é caído – principalmente quando ela está usando camuflagem pra chamar a atenção pra incidências de misoginia e machismo não só entre seus colegas de classe, mas também de todo o sistema escolar com diálogos que criticam autores que baseiam sua literatura em misoginia pura e são naturalizados. É dessa forma que somos introduzidos à Kat: como uma mulher que chegou pra brigar e está vestida pras trincheiras.

Kat põe Joey no lugar quando ele atribui a irritação dela com o comportamento dele à TPM. Fala sério, atribuir qualquer reação de desconforto a hormônios é invalidar como você se sente. Não dá pra aceitar, né? Fora outros feitos da personagem como ser aceita de primeira na Universidade Sarah Lawrence, realizar seus mais loucos sonhos de possuir uma Fender Stratocaster, ir num show do Letters to Cleo (inclusive, a trilha sonora toda é ótima). Ou então instalar rádios em carros – tanto faz. Kat não é perfeita, ela tem defeitos mas é uma pessoa auto-suficiente. Adoraria ter sido como ela na adolescência e eu até hoje tento ser.

Merida

Não há controvérsias, podemos dizer com propriedade que dentro da Disney tem SIM várias personagens fortes: Mulan, Bella, Elsa e a mais nova, Elena. Mulan tem um dragão, quebrou regras, se vestiu de homem, lutou no exercito chinês trazendo honra para sua família, salvou o boy, salvou a China e destruiu a porra toda e até a barreira de gêneros. Bella é uma diva, inteligente, pensamentos avançados, girl power nata, enfrentou a fera e aposto que foi uma das mentoras da revolução francesa. Elsa é a representante da sororidade e Elena está prometendo chegar pra chutar o patriarcado. Mas, de todas essas, tem uma que se destaca e seu nome é Merida, a jovem protagonista do filme Valente, que levou um merecido Oscar, pois mostrou uma nova princesa que não sonhava com príncipe encantando, muito menos queria um reino. Merida luta por seus direitos de escolha, rompendo padrões patriarcais e criando o seu próprio destino, mostrando que ninguém pode te obrigar a fazer o que você não quer fazer. Obrigada, Merida!

Beatrix Kiddo

Depois que a personagem de Uma Thurman acorda de um coma de quatro anos, ela percebe o que aconteceu: um grupo assassinou seu noivo e tentou matá-la durante seu casamento. Ela acaba perdendo o bebê, mas assim que se recupera, começa a planejar sua vingança em Kill Bill. O enredo abrange para o empoderamento feminino assim como nos filmes Jackie Brown e Death Proof. No fim das contas, Kill Bill Vol. 1 e Vol. 2 são ótimos filmes sobre a força feminina e até sobre maternidade, encerrando a história com a frase “A leoa recuperou sua cria e tudo está em paz na selva”. Porque mães também podem chutar bundas e lutar!

Por um mundo em que a política seja mais parecida com Parks and Recreation do que com House Of Cards. Sim, Parks é um raiozinho de sol necessário numa época dominada por ~homens difíceis~ e que outra série tem como core value a mensagem BE NICE? É um raiozinho de sol em meio ao cinismo da televisão contemporânea. E eu acredito honestamente que a Leslie Knope da Amy Poehler foi a personagem feminina mais evoluída que já vi na televisão. Role model para a vida com a frase mais incrível que devia ser o motto para qualquer mulher: “THERE’S NO WRONG WAY TO BE A WOMAN”. Algo tão simples, tão verdadeiro e tão ignorado diariamente.

Provavelmente Leslie Knope é a personagem feminina que veio para quebrar o ciclo retrógrado do patriarcado e fazer um serviço em prol das mulheres na televisão. Aliás, essa série TODA é um serviço à sociedade / humanidade. Quem ainda não viu, esse é um bom motivo para começar uma maratona agora mesmo!

Sheila Jackson

Sheila é uma mulher com um coração de ouro, um pouco ingênua (principalmente no que remete a sua filha), dona de casa, agorafóbica e tem umas taras sexuais muito particulares. Tudo isso junto dá uma personagem fantástica que tem um desenvolvimento INCRÍVEL ao longo da série e que ainda te proporciona muitas gargalhadas e empatia! Sheila é um grande exemplo de que para ser alguém forte não é preciso vestir uma fantasia e sair chutando bundas por aí – ainda que não tenha nada de errado fazer isso também, se quiser…

Jessica Jones

Jessica é o centro complexo da história. Vitima de estresse pós-traumatico, ela é o retrato de uma mulher psicologicamente abalada, cheia de culpa, problemas com o álcool e em confiar nos outros. A heroina é completamente humanizada e toca em outro forte na trama: as marcas do abuso a longo prazo e a forma como encaramos isso dentro da nossa sociedade. Em uma sociedade que é patriarcal e machista, um casamento no qual a mulher passa a ser uma servente do seu marido, é algo mais normal e cotidiano do que podemos pensar. Além da ideia de propriedade, devemos levar em conta a questão da obediência e da agressão constante. Jessica Jones representa, em diversos momentos, uma mulher que tenta constantemente superar os traumas e marcas de um agressor. O assédio chega no seu limite máximo. O vilão da história causa um terror e uma tortura psicológica que se equiparam aos de qualquer homem misógino, machista e deturpado. Mesmo que na série e na HQ existam poderes sobre-humanos, o que vemos retratado e que nos faz debater é o papel do homem e da mulher. A busca pelo respeito e pela igualdade. Jessica Jones é feminista e talvez nem tenha se dado conta disso, o fato de a série contar com uma participação feminina tão grande e todas essas personagens serem independentes e empoderadas, reforça ainda mais a questão. Incluindo Trish, a melhor amiga de Jessica, que mesmo sem nenhum super poder não abaixa cabeça e faz questão de acompanhar a amiga em suas missões perigosas. Além disso, a série sai desse universo de super-poderes para trazer assuntos mais próximos a nossa realidade, como o próprio relacionamento abusivo que, mesmo em um entorno fictício de super heróis, é possível encontrar semelhança com situações reais como as que milhares de mulheres passam, infelizmente. O que torna Jessica, além de uma super heroína, também humana e frágil como qualquer um de nós.

Jessica Crusco
Colaborador | | Também do autor.

Jessica Crusco é formada em RTV, pós graduada em cinema, mestra em bad vibes e doutora em problematizar. Frustrada por saber que não irá conseguir assistir todos os filmes de sua lista de 'quero ver' antes de morrer.

>