“O Assassino: O Primeiro Alvo” é uma ação básica, mas eficiente.

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Dizer o quanto os ataques de 11 de setembro de 2001 mudaram o mundo já é até lugar comum. O choque gerou uma onda que continua até hoje, e o terrorismo é pauta corrente em grande parte por causa daquele dia. Com isso, é natural que a essa altura o cinema já esteja até saturado de produções que em sua maioria têm função de catarse. Filmes que usam o velho maniqueísmo hollywoodiano com o terrorista preenchendo o lugar do vilão. Nesse sentido, O Assassino: O Primeiro Alvo tenta repensar esse chavão pelo menos um pouco. Ainda temos aqui um thriller de espionagem que segue muito da cartilha do gênero, mas feito por pessoas que parecem saber quando é hora de sacudir um pouco a zona de conforto.

A premissa é das mais básicas: sobrevivente de um ataque terrorista que vitimou sua noiva, jovem parte em uma cruzada de vingança, treinando por vários meses e dando um jeito de se infiltrar em uma célula islâmica liderada pelo mandante do ataque. Seus movimentos têm sido monitorados de perto pela CIA, que no momento oportuno consegue ter o rapaz em seu poder e acaba por recrutá-lo porque ele conseguiu sozinho avanços que a central de inteligência não conseguiu. Mas tudo isso acontece ainda no primeiro ato, e é depois que as coisas começam a ficar interessantes, mesmo com uns clichês sempre à vista.

Esses clichês não são pouca coisa. Eles estão ali movendo a trama e definindo o arco dos personagens principais. Nosso (anti?)herói, Mitch Rapp (Dylan O’Brien, bem convincente no papel), é colocado sob os cuidados de Stan Hurley (Michael Keaton sendo muito Michael Keaton, o que é positivo), um veterano que vive isolado no meio do mato e treina um pelotão de operações especiais. Os dois percebem logo de cara que discordam em muita coisa, principalmente no modo de agir. Hurley tem muita experiência e sempre age de modo protocolar e planejado, enquanto o jovem Rapp tende ao improviso e se arrisca com frequência. Ainda que a “rebeldia” de Rapp quase sempre dê bons resultados, Hurley não perde nenhuma chance de repreendê-lo.

Por outro lado, é justamente essa relação manjada entre tutor e pupilo que aponta pra algumas quebras de paradigma. Em uma de suas broncas, o veterano diz em tom de sabedoria milenar: “Nunca leve as coisas pro lado pessoal”. Essa fala tem ecos ao longo do filme todo, mas sem virar um mantra vazio, já que levar as coisas pro lado pessoal também é algo que move a trama chegando até a motivar alguns twists bem inseridos na história. E são esses twists, aliás, que relativizam diretamente o arquétipo do vilão. Dizer muito mais do que isso seria spoiler dos mais maldosos, mas vale notar que isso imprime nuances aos personagens principais e evitando que eles se mantenham planos e estereotipados.

Mas o roteiro não percorre o caminho todo sem uns tropeços. Os diálogos expositivos não foram evitados, tanto pra explicar as motivações de alguns personagens quanto pra contextualizar o passado de Rapp. O livro original faz parte de uma série enorme, e o filme prepara um terreno descarado pra uma possível franquia (o que o título nacional faz o favor de potencializar). Por isso, esses diálogos tentam passar uma sensação de que há muito mais ali do que estamos vendo, só que isso chega a soar um pouco artificial. Além disso, o personagem de Michael Keaton em dado momento parece personificar um certo mea culpa americano que sofre da mesma artificialidade.

O filme também apela pra alguns exageros, mas enquanto a gente poderia esperar aquelas ações impossíveis, isso recai muito mais sobre o drama. A cena de abertura, que motiva a vingança de Rapp, foi feita pra pegar no coração do espectador e apertar o bastante pra garantir a cumplicidade. E espere também ver muitos inocentes morrendo na frente da câmera só pelo choque, além de sangue respingando na lente. Mas esse mesmo apelo ao exagero também nos brinda com uma cena que traz duas atuações dignas de nota: Michael Keaton, que chega a parecer seu bom e velho Beetlejuice, mas com mais danos psicológicos; e Taylor Kitsch que, apesar de não surpreender, se mostra bem eficiente e ameaçador na medida certa.

E, por falar em eficiência, a sequência do clímax é ação bem ensaiada e até ambiciosa pela magnitude. O roteiro leva aqueles clichês e diálogos expositivos até o fim, mas a essa altura o espectador já aceitou que o filme é assim e pode conseguir curtir a tensão. A ideia mais que evidente é te deixar na ponta da cadeira, e isso vai funcionar que é uma maravilha pra quem gosta. Ninguém vai encontrar a reinvenção da roda, mas o espectador do gênero está muito bem servido e quem quiser pegar carona pode curtir a viagem.

Lucas Mendes Kater
Colaborador | Também do autor.

Tradutor, revisor e redator, ocasionalmente se infiltra no audiovisual pra tirar um troco. Formado em Letras e pós-graduando em Escrita Criativa, com ênfase em ficção pra ver se aprende a mentir. Também diz que é músico, mas só toca uns rock feio, sujo e errado.

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