”O Mínimo Para Viver” é um pouco mais dramático que o necessário.

Mesmo com seu foco em transtorno alimentar, suas motivações e efeitos, To The Bone ou O Mínimo Para Viver, acha em seu tempo, espaço para dialogar sobre problemas em geral, como a dificuldade em se relacionar com pessoas ao seu redor e familiares, aceitação própria, erros e más conexões do passado, medo e afastamento. Aqui Marti Noxon tenta passar toda a catástrofe pessoal de um ser humano que sofre em diversos aspectos de sua vida e pode-se dizer que consegue, mas apenas em um nível mais superficial com um olhar também de espectador.

Com o auxilio de pessoas que sofreram de transtorno alimentar para construir a produção do filme, o roteiro parece dar um porta de entrada favorável para uma análise da vida de uma forma menos poetizada, para que se busque conciliação, e sim de maneira crua e ríspida. Esse feito se mostra verdadeiro principalmente nos diálogos e pensamentos implícitos e explícitos no primeiro ato do longa. A atuação por parte de Lily Collins é o fio condutor que se mantêm estável durante os noventa minutos de história, mas é aqui com dois minutos que a atriz já passa o clima de sua personagem e ao mesmo tempo, através da fisicalidade, um ser humano instável e que não sabe do impacto em sua condição nos outros em sua vida.

No entanto a maior dificuldade que o filme traz para si mesmo é o foco visual escolhido pela direção na hora de pescar suas imagens e decidir o que é mostrado em cena. Quando nos deparamos com um acontecimento horrível dentro do centro de tratamento em que Ellen, a personagem principal, se encontra, de primeira vista o foco vai para o rosto e as reações de Lily Collins que com emoção e talento, planta, na cabeça do espectador, uma ideia da cena trágica que está presenciando. Os olhos marejados e as feições trêmulas eram detalhes sutis e elegantes que passavam uma sensação de perda e estética muito real, mas infelizmente o foco se muda rapidamente para a cena e em um frame a sensação já não é a mesma.

E quando se retorna à sensação de crueza que o roteiro parecia passar, sem “amaciar” a história, ela se mostra uma falsa primeira impressão. Buscando emocionar quem assiste, o filme acabada sendo mais dramático que o necessário e põe as pessoas reais que mostra em tela em posições de caricatura.

No mais, são pequenos defeitos que não conseguem derrubar o conteúdo que vem presente em todo o tempo em tela. A produção da Netflix ainda tem um cheiro do molde que seus filmes parecem ter e carrega em suas etapas, nuances de “Spotlight – Segredos Revelados” que não é necessariamente toda boa.

 

Vinícius Soares

Cinéfilo desde que descobriu o que significava cinema e o valor da Sétima Arte, viciado em séries em um nível saudável, desenha ocasionalmente e escreve mais do que come. Sonha em ser roteirista e jornalista e com certeza deseja ser um pouco mais alto