”O Rastro” demonstra uma maturidade notável para o terror brasileiro.

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O cinema brasileiro sempre trouxe coisas boas e isso é um fato. Claro que existem coisas que fogem dessa linha, mas até aí, qual país é perfeito, não é verdade? Porém, algo que não é muito comum aqui na nossa terra, são os filmes de terror. Tirando Zé do Caixão, é muito raro o grande público lembrar de alguma obra bem sucedida do gênero e isso acaba sendo triste, afinal, com o incentivo certo, poderíamos ter grandes obras do gênero despontando daqui para o mundo. A criatividade do povo brasileiro é invejável e não acho que isso seja diferente se tratando desse mundo sinistro que cativa muita gente.

O Rastro é um filme de terror nacional que veio com o intuito de quebrar esse conceito e isso ficou nítido em todo seu material de divulgação. A produção demonstrava ser muito boa e o elenco, assim como a trama, também era bem chamativo. Não demorou para que a promessa de uma obra diferente fosse feita e demonstrasse ter tudo para cair nas graças (ou na dúvida) da galera. Seria essa a grande alavancada do terror brasileiro?

Na trama, João é um médico que está cuidando da transferência de pacientes de um hospital que está para fechar; tudo isso em meio a uma grande manifestação que está ocorrendo por conta do sistema de saúde brasileiro. É nesse trampo que ele conhece Julia, uma menina que está sozinha no hospital e ele promete proteger. Só que as coisas complicam quando a fofa desaparece e toda a culpa parece cair sob seu ombro, levando o cabra em uma investigação sobre o paradeiro da garota, que colocará em cheque não só sua credibilidade, mas também sua sanidade.

Livremente inspirada em um montão de filmes conhecidos do povão, a história de O Rastro tem um clima bem construído e uma produção nitidamente muito acima dos filmes de terror produzidos aqui no Brasil nos últimos tempos, porém, a meu ver, pecou bastante em seu desenvolvimento. Parece que a maneira que ele começa não combina com o seu final, por ser um mega spoiler sobre os rumos que ela toma, não vou entrar em muitos detalhes, mas essa reviravolta por mais que seja interessante em sua teoria, parece que não funcionou na prática e levanta uma séria dúvida sobre o que o diretor e os produtores queriam realmente passar com o filme no final de tudo: um terror sobrenatural ou uma trama mais realista com toques fantasiosos? Está aí um grande problema do filme, ter uma reviravolta eficiente, mas que não funcionou para mim devido a maneira como aconteceu, sem nem um pouco de delicadeza e acima de qualquer coisa: suspense.

Ao longo da projeção, muitas coisas me incomodaram referentes às escolhas que a equipe de produção tomou para dar o TCHAM de terror. Por exemplo, chega a ser bizarra a quantidade de cenas onde uma criança aparece berrando, tipo, BERRANDO MESMO e aleatoriamente. Assim como a desnecessária barulheira em toda sua sonoplastia, um personagem vai abrir uma porta e parece que tá rolando um desmoronamento, outro fulano vai abrir uma gaveta e parece que está rolando um show de heavy metal, pô, não era preciso tudo isso, sabe? O suspense está na sutileza. No bate papo que participamos com a equipe do filme após a sessão para imprensa, o diretor J.C Feyer  disse que foi algo proposital para causar incômodo e fazer uma alusão com o cotidiano brasileiro, mas isso para mim não colou nem um pouco. Pelo menos não em um sentido bom. O que é uma pena, já que toda a ideia do filme poderia render algo completamente diferente do apresentado se tivesse um pouco mais de ousadia, afinal, se a intenção é chocar, você tem que deixar isso claro de alguma forma, não é verdade?

Se O Rastro peca muito em alguns pontos da sua produção, há também elementos bons a serem destacados. Rafael Cardoso manda muito bem como o protagonista perturbado e Leandra Leal tem uma personagem que cresce bastante ao longo da história, e claro, uma atuação maravilhosa como já era de se esperar. O clima de suspense também é sempre presente e consegue nos prender para saber como aquela patifaria toda vai acabar, há cenas muito boas de terror ali que não devem nada para filmes gringos, e toda sua ambientação no hospital antigo é bem interessante, mesmo que pudesse ter sido beeeem mais explorada e sem sombra de dúvidas, macabra. Ah, assim como a personagem de Laura Cachorra Cláudia Abreu que podia ser bem melhor desenvolvida, afinal, um atrizona da porra que nem essas merece o devido destaque.

Pensando friamente, não diria que O Rastro é um filme ruim, pois toda a intenção de sua produção foi muito boa, desde a concepção da história (que foi ótimo de ouvir da boca de toda a equipe) até a sua produção dedicada. Para um gênero pouco explorado aqui na terra do É O Tchan, isso é com certeza uma elevação de nível surpreendente e que demonstra uma maturidade notável para o terror brasileiro. Porém, se você espera ver um fantasma montado em um cavalo sem cabeça e empunhando um crucifixo gritando REVOLUÇÃO, pode tirar o cavalinho da chuva. As constantes reviravoltas e os sustos grátis estão ali, pena que não surpreendem.

[EXCLUSIVO] Leandra Leal tem um convite para vocês  😀
CURIOSIDADES SOBRE OS BASTIDORES!
  •  A produção de O Rastro levou 8 anos para ser concluída.
  • A história original envolvia uma fazenda no interior do estado de Minas Gerais, mas por conta de parecer muito ”americanizado”, eles preferiram montar uma nova.
  • Há uma cena que não havia sido planejada daquela maneira, porém foi mudada na versão final devido a uma experiência sobrenatural (?) do ator Rafael Cardoso.
  • Se nos filmes americanos é comum ficar gelado na presença de alguma entidade, aqui o diretor quis fazer diferente e colocar o calor e o suor no lugar desses elementos.
  • Há uma grande surpresa no elenco que não foi divulgada em momento algum da divulgação, e isso foi combinado desde o início entre ambas as partes.
  • O mercado cinematográfico internacional já confirmou distribuição de O Rastro em um futuro não muito distante.
  • Ao fechar o contrato para filmar no hospital, que assim como no filme também estava para fechar, os novos gestores chegaram chegando e adiaram por mais algum tempo as negociações de gravação no local
  • O filme todo foi gravado com pouca luz e sem grandes recursos de iluminação.

 

Victor Piacenti
Editor Chefe | | Também do autor.

Um cara fanático por Stephen King, que sente um prazer imenso ao ver uma cidade sendo destruída na tela do cinema. Além de ser sagitariano, não sabe andar de bicicleta, é viciado em coxinha e acredita (até demais!) em ETs.

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