”Okja” é capaz de entreter e nos fazer questionar a realidade.

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Sabe aqueles filmes que te encantam para falar de um assunto sério, triste e necessário? É o caso dessa parabola de ficção científica incrível chamada Okja. Produzido pela Netflix, esse filme do diretor sul-coreano Bong Joon-Ho (Expresso do Amanhã) foi apresentado no Festival de Cannes e começou nesta quarta-feira (28) a ser difundido para os assinantes. O filme causou certa polêmica e apreço ao mesmo tempo no festival, os espectadores aplaudiram em pé por longos minutos.

Estamos na Nova York de 2007. Lucy Mirando (Tilda Swinton) é a CEO de uma poderosa empresa e apresenta ao mundo que uma nova espécie animal foi descoberta no Chile, apelidada de “super-porco”, ela é cuidada em laboratório e tem 26 animais enviados para países distintos, de forma que cada fazenda que o receba possa apresentá-lo à sua própria cultura local. A ideia é que os animais permaneçam espalhados ao redor do planeta por 10 anos, sendo que após este período participarão de um concurso que escolherá o melhor super-porco.

Ou seja, só aqui já levamos um tapa porque é jogado na nossa cara como os animais são comerciados, tratados não só como alimento mas também como entretenimento fazendo parte desse “reality show” de super-porcos. Uma década depois, nós então, conhecemos Mikha (Seo-Hyun Ahn), uma jovem que arrisca tudo para evitar que essa poderosa companhia multinacional sequestre sua melhor amiga – uma porca gigante chamada Okja. Ao conhecer Mikha e Okja, somos levados a rotina das duas e percebemos ali uma amizade genuína entre humano e animal, tudo isso em um ambiente paradisíaco. Mas tudo se complica quando então Okja é forçada a abandonar o lar em que vive com a jovem pois faz parte do programa de “super-porcos” da empresa Mirando. A história mostra o amadurecimento da jovem, enquanto ela expande seus horizontes de um jeito que ninguém desejaria: tendo que enfrentar a dura realidade de experiências com alimentos geneticamente modificados, globailização, terrorismo ecológico e a obsessão da humanidade com a própria imagem, marcas e autopromoção.

Okja é uma bela fábula ecológica sobre um mundo mais ou menos futurista em que uma grande corporação criou, por manipulação genética, uma espécie de porcos gigantes que, pelos seus custos reduzidos, vão poder servir de alimento a mais pessoas. E sim, a realidade dos abatedouros vem a tona novamente.

Já em seu início, Okja é impactante. Em uma apresentação em ritmo frenético com excelente atuação da Tilda Swinton com sua personagem a là anime, graças aos movimentos amplos e eufóricos, toda a ambientação em torno do surgimento do super-porco é estabelecida. Mais ainda: é possível notar a importância da publicidade dentro de tal anúncio feita pela CEO da empresa, justamente pela forma como cada informação é apresentada.

A velocidade de dados jogados na tela de forma a desorientar mais do que explicar é proposital: a ideia é deixar atordoado quem assiste, de forma que não tenha muitas condições de raciocinar sobre o tema naquele instante e, obviamente, não surja qualquer questionamento. Esse é o objetivo. Em meio a tudo isso temos também a organização de ativista de direitos animais, FLA, um grupo de jovens destemidos e que seguem sua filosofia de vida, custe o que custar. Seguindo esse caminho, com um discurso constante de defesa à natureza, Okja caminha rumo a temas importantes sem jamais deixar de lado o entretenimento. Tanto que, especialmente no primeiro terço do filme, tem bastante cenas de ação e até mesmo um humor infantilizado, incluindo questionáveis situações escatológicas. Tudo para de imediato capturar a atenção do espectador de forma que, mais a frente, possa desvendar toda a batalha midiática até então oculta.

Sustentado por sofisticados efeitos especiais (o corpo de Okja, embora gerado por recursos digitais, possui qualquer coisa de eminente físico), o filme de Bong Joon-Ho reflete um pouco de realismo fantástico, mais ou menos juvenil, para a história. A fotografia é impecável, direção de arte é maravilhosa e juntas compõem quadros deslumbrantes para os nosso olhos. Destaco aqui várias cenas (sem spoilers): quando vemos Mikha em uma perspectiva de corretor da empresa Mirando ou quando ela está descendo a escada do metrô contra uma multidão de pessoas vestidas de roupa social e ela com seu casaquinho vermelho no contra-fluxo em um plano zenital perfeito. O que deixa o filme encantador, mas com uma mensagem forte a ser passada.

Outra coisa que merece destaque é o olhar doce de Okja que conquista qualquer um, um animal com um olhar tão expressivo, capaz de compreender e prestar atenção em tudo que Mikha diz, passando uma amizade forte e muito verdadeira entre as duas. Mas espera, deixa eu falar dos olhos da Okja mais uma vez? Que coisa linda que eles são! É aquela máxima: um bichinho pequeno com olhos grandes você tende a achar fofo e um bichinho grande com olhos pequenos você tende a achar mais fofo ainda! Acertaram em cheio.

A ideia de Okja surgiu quando a imagem de um animal grande e desajeitado com uma expressão triste surgiu na cabeça do diretor. Ele tentou imaginar o motivo daquela melancólica toda do animal e refletiu sobre a predileção um tanto arbitraria da humanidade por definir alguns animais como comida e outros como companheiros. Okja é tecnicamente uma porca mas tem uma linhagem como hipopótamos, elefantes e vacas marinhas, as gentis criaturas que inspiraram seu focinho não muito de porquinho, no caso. Embora haja sim, cenas no matadouro e sofrimento em profusão, boa parte do filme é leve e o humor seco do diretor Bong está sempre visível.

A trama segue a linha socialmente consciente que caracteriza os trabalhos anteriores do diretor, como no filme Expresso do Amanhã (2013) que trata de aquecimento global. Como pesquisa para o filme o diretor e sua equipe visitaram um matadouro no Colorado e o diretor disse que o cheiro que ele sentiu já no estacionamento a centenas de metros do abatedouro em si, era uma mistura de sangue, excremento e medo animal, quase o derrubou.

Ele observou as vacas que esperavam para entrar e assistiu ao abate do lado de dentro, com cada pedaço de seus corpos em entrevista ele disse “há momentos em que desejo infligir certa dor psicológica no filme porque na realidade é isso que os animais sentem”, mas o filme não bastou só para fazer da equipe um grupo de vegetarianos como também após o processo do filme, Bong se tornou vegano. Tanto que, sua ideia inicial para o filme não era causar polêmica, mas sim para ser um filme bonito que tocasse os espectadores, a sua questão mais politizada veio depois. E na minha opinião, ele conseguiu com maestria trazer as duas coisas pois o filme é singelo e faz refletir ao mesmo tempo.

Diante de tamanha excelência de roteiro e produção, temos que destacar também a qualidade do elenco. O filme resulta de uma aliança de talentos das mais variadas origens. Por exemplo, Ahn Seo-Hyun que apesar de ter apenas 13 anos já possui uma dezena de filmes em seu currículo, inclusive o drama premiado A Empregada (Hanyo, 2010), essa menina desponta pelo carisma enquanto Tilda Swinton reprisa sua excelência habitual na criação de versões exóticas. Já Jake Gyllenhaal não sei se amo ou odeio a personagem dele nesse filme. Gente, o que é aquela voz que ele criou? Maravilhoso! Não parece a mesma pessoa, socorro.

Paul Dano entregou um personagem absolutamente delicioso, seja pelo linguajar corporal ou pelo idealismo exacerbado. Quem também chama a atenção é o Steven Yeun (The Walking Dead), Shirley Henderson (Sim, a Murta Que Geme de Harry Potter está no filme!) e também Giancarlo Esposito, não propriamente pela atuação mas pela escalação de forma que o público imediatamente remeta seu personagem a Gus Fring, o icônico vilão da série Breaking Bad. Uma escolha inteligente de casting, por estender o papel além do que o próprio roteiro oferece.

Por fim, Okja é um filme muito bom, porém confesso que esperava um pouquinho mais do final, apesar de entender que o filme opta, intencionalmente, pelo conforto com as mesmas armas – o que, mais uma vez, ressalta a inteligencia do roteiro, escrito em parceira com Jon Ronson e o próprio diretor. Com ótimos efeitos especiais, especialmente na tradução de sentimentos através do olhar (sim, estou falando novamente do olhar da super-porca, foquem no olhar daquele animal!), tão presente no mundo contemporâneo, estimulando o nosso questionamento sobre a diversidade do comportamento humano e luta ativista dos ideais sociais, para que assim as barreiras dos tabus sejam transpostas e que a Liberdade de cada personalidade possa ser plural, ampla, sem preconceitos e conviver pacificamente no ambiente em que vivemos, que cada vez muda e, acima de tudo é transmutado por infinitas possibilidades descobertas.

 

RECADO IMPORTANTE:
  1.  Tem cenas pós créditos. Esperem!
  2. Gente, acessem MIRANDOISFUCKED.COM – o site existe mesmo!

Jessica Crusco
Colaborador | | Também do autor.

Jessica Crusco é formada em RTV, pós graduada em cinema, mestra em bad vibes e doutora em problematizar. Frustrada por saber que não irá conseguir assistir todos os filmes de sua lista de 'quero ver' antes de morrer.

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