Passageiros (Crítica)

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“Estamos em um navio afundando” (We’re in a sinking ship). Esta é uma frase dita pela personagem de Jennifer Lawrence por meados do terceiro ato do filme. Foi o momento em que a comparação com “Titanic” se concretizou e pôde-se entender o que o diretor quis fazer, e conseguiu em parte, aqui em “Passageiros”.

No longa, Jennifer Lawrence e Chris Pratt são um casal formados pelo acaso quando seus casulos de hibernação são desativados na nave Avalon e os dois acordam noventa anos antes de completarem sua viagem. Ao lado de um barman androide os dois vão buscar entender o que deu errado com a nave e tentar voltar a dormir até chegarem a seu destino. E é com esse plot simples e despretensioso que Morten Tyldum conseguiu fazer um dos filmes mais divertidos deste final de ano.

Não se engane ao pensar que vai encontrar reflexões sobre a vida e o que o ser humano significa sendo um ponto minúsculo na vastidão do espaço. Antes de uma ficção-científica este filme é um romance, e um romance bem estruturado. Existe um certo carinho entre o espectador e personagens que claramente ajuda a contar a história, e muito se deve à química entre Lawrence e Pratt. É transparente que os atores estão se divertindo ao fazer o filme e ambos passam conforto entre seus pequenos gestos, como olhares, toques e risadas. O senso de apoio que um encontra no outro é crível e as histórias de suas vidas ajudam a conectá-los.

O filme também tem estofo visual. As escolhas artísticas que vão dos interiores até o visual da nave são claramente bem pensadas e não são futurísticas ao ponto de parecerem falsas. O uso da gravidade e efeitos visuais para ajudar a criar a atmosfera de falha e dar ênfase aos problemas na nave são pontuais e não são repetidos ao ponto de tornar o visual banal e até desnecessário. Já o roteiro é um tanto quanto primário e operante. É uma jornada simples, criada e construída pelas mãos de quem sabe o que está fazendo, mas deixa a sensação de que poderia ser melhor com um pouco de coragem. Lá pelos 110 minutos, se saísse um pouco da zona de conforto, “Passageiros” poderia realmente ser algo diferente para seu público alvo, assim como outros filmes do estilo.

Dessa forma, o romance nas estrelas de Lawrence, Pratt e Tyldum carrega um orçamento recheado que está na tela em belos cenários e cenas de ação. Tem em seus protagonistas um dos casais mais relacionáveis do ano e com seu coadjuvante um acerto para balancear a história com comédia. “Passageiros” passa longe de ser um filme ruim, mas se mantem um pouco acima da média com as escolhas fáceis que faz. É o tipo de história que talvez funcionasse melhor como livro, mas é diversão pipoca garantida às custas de muito dólares, reforçando a ideia de que com uma indicação ao Oscar os estúdios te darão dinheiro para fazer o que quiser. Ao menos aqui existe qualidade.

Vinícius Soares
Colaborador | Também do autor.

Cinéfilo desde que descobriu o que significava cinema e o valor da Sétima Arte, viciado em séries em um nível saudável, desenha ocasionalmente e escreve mais do que come. Sonha em ser roteirista e jornalista e com certeza deseja ser um pouco mais alto

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