Punho de Ferro (1ª Temporada)

Na abertura de “Demolidor” é possível ouvir as batidas altas e destacadas enquanto o sangue constrói um ambiente familiar ao personagem em volta, providenciando texturas, densidade e formato ao mundo em tons de vermelho que aparecerão ao decorrer da temporada inclusive para permitir que o católico Matt Murdock exorcize seus demônios em seu uniforme do Demônio de Hell’s Kitchen. Já em “Jessica Jones”, os tons de púrpura, lilás e azul tingem todos os acontecimentos desenhados em estética noir e orquestrado por uma trilha detetivesca, reforçando a ideia de controle exercido pelo vilão na vida da heróina, permitindo que a mesma exploda no season finale se libertando. Em “Luke Cage” é possível ver Nova York tecida na pele do herói, mais especificamente o Harlem, onde o homem de pele impenetrável acha suas raízes e encontra coragem para se expor e defender sua cidade e bairro.

Agora aqui em “Punho de Ferro”, o guerreiro esculpido em metal derrete pelos ares com belos movimentos de luta, lindamente coreografados e aprimorados, mas ainda assim seu rosto não é mostrado. É essa a sensação deixada por “Punho de Ferro”, a quarta série dos heróis da Marvel na Netflix. Uma experiência com muito potencial, mas ainda muito ingênua e sem personalidade.

Danny Rand é um garoto que, quando tinha doze anos, sofreu um acidente durante um voo e perdeu seus pais quando caiu no Himalaia, sendo salvo por monges. Criado como um guerreiro na cidade paraíso de K’un-Lun, o garoto agora adulto retorna para Nova York para entender o que aconteceu anos atrás e retomar o que seus pais deixaram para ele por direito. Com as habilidades do Punho de Ferro e sem forma de provar sua palavra, Rand tem que fazer sentido na cidade onde aliens caem dos céus e enfrentar concorrência por dinheiro, poder e domínio, não só de sua empresa, mas também do submundo místico de Nova York.

E é exatamente no ponto em que deveria inovar e renovar o jeito Netflix de fazer série de super-herói que “Punho de Ferro” falha em encontrar sua essência e provar que saberia aproveitar o jeito mundano de abordar o gênero, mas com uma mente aberta para os visuais exagerados, mágicos, místicos e despreocupados dos quadrinhos. No entanto quando chega na hora de mostrar a que veio, parece que foi pensado que a teorização de tudo seria o bastante para agradar e somente a sugestão de uma caverna com dragão, uma árvore de sombra quilométrica e um punho cerrado flamejante bastariam.

Imagem relacionada

O aspecto que mais agrega qualidade aos treze, quase longos, episódios é a fluidez e qualidade das muitas boas cenas de luta que, com o estilo oriental incorporado na rigidez do que estava sendo visto, ajuda a manter os olhos fixados sem exageros e repetições. Ao seu fim, “Punho de Ferro” não traz o mesmo sentimento que suas antecessoras tinham. O de anseio ou espera para uma nova jornada, ao menos não sozinha. Já o que Danny Rand pode trazer para os “Defensores” é de fato interessante. Um viés mais imaturo e destreinado para rebater na crueza do Demolidor, o humor ácido de Jessica e a seriedade de Luke.

“Quem é Danny Rand?” perguntava uma foto promocional da série. Se esta e a resposta então não havia porque tanto interesse. Mas se o carisma e habilidade aqui presentes se mostrarem mais úteis em um futuro não tão distante, Rand poderá ser um sobrenome digno do panteão Murdock, Jones e Cage.

 

Vinícius Soares

Cinéfilo desde que descobriu o que significava cinema e o valor da Sétima Arte, viciado em séries em um nível saudável, desenha ocasionalmente e escreve mais do que come. Sonha em ser roteirista e jornalista e com certeza deseja ser um pouco mais alto