Quatro Vidas de Um Cachorro (Crítica)

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Talvez você tenha escutado falar muito desse filme nos últimos dias. Correu pelas redes sociais um suposto vídeo onde um dos cães usados nas gravações sofre maus tratos da produção e isso despertou a ira de muita gente, onde pedidos de boicote foram feitos e o circo foi armado. Se tudo foi uma edição para sabotar o lançamento não sabemos ao certo e também nem quero levantar essa bandeira, mas algo que podemos afirmar é que a polêmia em torno dele tomou proporções gigantescas e sinceramente, é muito triste ver tudo isso acontecendo, já que o trailer foi tão bonito, toda essa ideia da trama parecia ser tão tocante e essa história, por conter uma proposta bem diferente, demonstrava potencial para ir muito longe. A relação ”humanos <3 animais” já rendeu filmes maravilhosos e tudo indicava que esse poderia ser também. Pena que a expectativa nos últimos dias tomou outros rumos e bem… vamos falar sobre o filme?

Adaptado de um livro do mesmo nome, na história acompanhamos um cachorro chamado Bailey, que é muito feliz ao lado de seu dono Ethan. Eles são melhores amigos e o amor que ele sentem um pelo outro é algo que vai muito além de palavras e nós acompanhamos toda essa relação, até que em determinado momento acontece aquilo que todo mundo já está esperando e o bichinho renasce em outro local, em outra vida, outra raça, fazendo-o repensar o seu propósito no mundo e em todo o amadurecimento que suas quatro encarnações fizeram em sua alma.

Dirigido por Lasse Halstrom, conhecido por outro filme de temática semelhante, Sempre Ao Seu Lado, Quatro Vidas de Um Cachorro é uma daquelas histórias que mexem demais com você, principalmente se você já teve um animal de estimação que compartilhou muitos momentos e foi o seu melhor amigo durante parte da sua vida. O diretor já tinha demonstrado habilidade para abordar essa questão e aqui ele faz isso de uma maneira DEVASTADORA, digo isso pois estamos diante de uma trama onde já sabemos que retratará um lado mais emotivo da coisa toda, a morte. Eu realmente achava que só o fato de o cachorro morrer pelo menos três vezes ao longo do filme seria o suficiente para chorar por dias, mas a coisa foi muito além. A morte é um tema presente sim, mas ele não fica apoiado nisso, sua história tem um humor gostoso, um nível de emoção gigante e por mais que seja muito deprimente ver essa transição de uma vida para a outra, ele emociona por um outro fato que pega em cheio no coração e claro, não vou contar para vocês. É nessa mudança que a produção demonstra sua força emotiva e todo o propósito do que vimos até então.

Por acompanharmos o ponto de vista do Bailey, rola demais aquela identificação. A inocência dele ao brincar com um gato, a lealdade dele ao salvar seus diversos donos e a sua força de vontade para ser o melhor amigo de alguém, é algo muito tocante e essa abordagem de Quatro Vidas de Um Cachorro é o seu diferencial. Como eu disse, as mortes são apenas um detalhe e não há uma forçada de barra para te emocionar, ele não te faz chorar por que ”noooossa o cachorro morreu”, quer dizer faz sim, mas ele pega em cheio também por ter uma história lindíssima que aborda não só a amizade entre duas espécies, mas também a missão de um animal com as pessoas que ama… e gente, isso é demais. Afinal não é segredo para ninguém que quando um bichinho ama, ele ama de verdade e aqui eles falam sobre isso de uma maneira muito gostosa, com rumos que são capazes de fazer qualquer marmanjão se debulhar… e o mais legal de tudo é que tudo vem com uma naturalidade imensa.

O carisma do cachorrinho (dublado por Josh Gad, o Olaf) lidando com situações e todo esse lance dos resquícios de suas vidas passadas é mostrado de uma maneira plausível, afinal, o corpo é diferente, mas Bailey, ou Ellie, ou Tino ou Buddy, são nada menos que o mesmo animal, compartilham da mesma alma e é lindo demais ver essa transição de suas quatro vidas. Seu amadurecimento, suas lembranças, suas motivações, é por isso que ele emociona. Não é apenas mais um filme de animais, saca? O diretor consegue traduzir isso de uma maneira leve, simples e a mensagem que fica no final de tudo é inesquecível… até mesmo por que o barulho da galera chorando na sessão para a imprensa não vai me deixar esquecer mesmo, da metade para o final parecia um velório. Não vou negar, adoro ver o poder que uma história bem contada tem sobre as pessoas.

Quatro Vidas de Um Cachorro é um filme muito bem executado dentro de sua proposta e extremamente bem produzido. Ele não fica querendo ser mais do que pode e também é muito sincero em sua mensagem e abordagem. Realmente acho muito triste tudo isso que está acontecendo em seus bastidores, afinal, essa é uma história com tanto a mostrar e também ser dito, no final, mesmo com a cara inchada, passavam tantas coisas boas dentro de mim, ele me fez rir, chorar, ficar apreensivo e também refletir e sentir saudades de todos os animais que tive, além de pensar em como eles me enxergavam e se eu conseguia repassar o mesmo bem que eles me fizeram. Poxa, se ele consegue transmitir essas sensações e ligar essa nostalgia, é sinal que sua missão foi cumprida, não é mesmo? Uma coisa eu garanto para todos vocês, a história de Bailey não vai sair da sua cabeça nunca mais e a Sessão da Tarde acaba de ganhar seu mais novo (e poderoso) integrante. Isso é maravilhoso!

Victor Piacenti
Editor Chefe | | Também do autor.

Um cara fanático por Stephen King, que sente um prazer imenso ao ver uma cidade sendo destruída na tela do cinema. Além de ser sagitariano, não sabe andar de bicicleta, é viciado em coxinha e acredita (até demais!) em ETs.

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