Silêncio (Crítica)

Em seu passion project que levou mais de vinte anos para levas às telas, Martin Scorsese encontra em Adam Driver, Liam Neeson e Andrew Garfield seus personagens para questionar o conceito de fé, até onde a fé leva uma pessoa e o poder da crença de um sobre o sofrimento de outros. Não é de forma alguma um filme fácil de se assistir, mas Scorsese faz de tudo isso um evento com intensões reflexivas e uma forte poder sobre o visual e intensidade do que é mostrado. O cinema sendo usado como meio de exorcizar demônios, sejam eles pessoais ou históricos.

O filme conta sobre a jornada de dois padres jesuítas até o Japão, no século dezessete, em uma época de banimento do catolicismo. Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield) e Francisco Garrpe (Adam Driver) buscam encontrar seu mentor (Liam Neeson) que cometeu apostasia após ser torturado e ver tortura, durante os expurgos anti-cristãos. De uma pequena sinopse pode-se ver a delicadeza com que deve ser tratado o assunto e Scorsese parece entender seu dilema e busca dar chance de explicação para todos.

Já na sequência de abertura percebe-se o cuidado tido para trazer perfeição visual à tela, e após tanta espera, não seria menos a vir do diretor. O posicionamento de atores, a movimentação calculada e os enquadramentos que fazem arte da dor e sofrimento, as cores e manipulação de ambiente. São todos elementos manuseados com esperteza para criar uma atmosfera que exala dor e ao mesmo tempo aparenta sensatez. Visualmente a espera parece ter ajudado a emadurecer as visões para o projeto e não é de se estranhar a indicação de Melhor Fotografia para Rodrigo Prieto.

Quanto ao ritmo da história, a passagem se vê tão paciente e serena quanto os personagens que retrata. Existe um certo nível de fluidez agradável durante o primeiro ato, que estabelece bem o ambiente pelo qual a jornada ocorrerá e os trágicos problemas a serem encontrados pelo caminho. O senso de presa vindo de uma complacência palpável de Scorsese cria um relacionamento interessante entre espectador, personagens e a hostilidade alheia. No entanto é durante cenas quase alongadas de mais, durante o miolo da história, que o filme ameaça cair no teor tedioso de sua jornada.

Assim, “Silêncio” não chega perto se ser uma obra prima do diretor, mas que não precisa temer ficar escondido a sombra de outros filmes por conta de suas qualidades incrivelmente ressaltadas. Quando acaba fica difícil saber se é um filme para se gostar e apreciar. A sensação que fica é de um estudo de perguntas ao redor de um plano de fundo cruelmente consciente de seu peso. É desconfortante, impiedoso, mas fiel a sua proposta.

 

Vinícius Soares

Cinéfilo desde que descobriu o que significava cinema e o valor da Sétima Arte, viciado em séries em um nível saudável, desenha ocasionalmente e escreve mais do que come. Sonha em ser roteirista e jornalista e com certeza deseja ser um pouco mais alto