“Trama Fantasma” conta mais do que os olhos veem.

 

Na filmografia de Paul Thomas Anderson, existem alguns exemplos de relações ambíguas entre homens e mulheres. Em O Mestre, Lancaster Dodd (Philip Seymour Hoffman) é líder de um grupo/religião/seita livremente baseado na cientologia e se mostra dominador a ponto de explodir ao ser contrariado, mas o filme deixa claro que sua mulher, Peggy Dodd (Amy Adams), é uma força motriz importante atuando por trás dele e que ele não detém tanto controle quanto pensa. Em Embriagado de Amor, Barry Egan (Adam Sandler) se esforça pra botar sua vida nos trilhos, mas vemos toda a sua vulnerabilidade e instabilidade devassadas quando ele está cercado pelas irmãs que começam a se lembrar de sua infância. Podemos dizer que é um tema que já interessa o cineasta há bastante tempo, mas que sempre se manteve mais às margens de sua atenção.

Em Trama Fantasma, por outro lado, isso se torna o centro da história. Acompanhamos o dia a dia de Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis), um estilista de sucesso na Londres dos anos 1950, responsável por criar vestidos ostentados por mulheres da alta sociedade e da realeza. Seu trabalho essencialmente criativo conta com a ajuda de sua irmã Cyril (Lesley Manville), que exerce um papel misto de administradora dos negócios e de governanta da casa onde ambos vivem e trabalham. Woodcock tem um apreço enorme por sua rotina silenciosa e metódica até que traz Alma (Vicky Krieps) para sua vida (trocadilho intencional porque o nome da personagem diz tudo). A garota se torna sua musa, servindo de modelo perfeito para seus vestidos, e amante, mas não no sentido extraconjugal, já que ele é um solteiro convicto. Woodcock é autoritário e exigente, mas Alma tem personalidade forte. Sua chegada vai abalar até os mínimos detalhes da vida do estilista.

Ele tem tudo pra se considerar peça-chave de um sistema que se move ao seu redor. Os vestidos de sucesso são suas criações, a própria irmã trabalha pra ele, e ele rege uma equipe de várias costureiras que dão conta de boa parte do trabalho de agulha e linha. Uma de suas clientes, extasiada ao experimentar o vestido que encomendou, comenta: “é como se você me desse coragem”. Suas atitudes quase se resumem a criar vestidos e tentar exercer esse poder sobre as mulheres ao seu redor. Seu sobrenome (metaforicamente, é melhor não traduzir wood e cock aqui) ecoa essa postura de macho alfa em uma matilha, e não parece ser à toa que a irmã aparece nos créditos finais apenas como “Cyril”. Mas o filme faz questão de nos mostrar que, por trás disso, as mulheres que ele pensa dominar na verdade formam toda uma estrutura que o sustenta. Sem as costureiras, não há vestidos. Sem a irmã, não há negócios. E, claro, sem as clientes, não há dinheiro. No final das contas, Woodcock é frágil como uma pequena ave (aí sim mais próximo do sentido literal do nome: uma ave de pequeno porte mais presente no hemisfério norte e sem nome equivalente em português, que eu saiba).

Nesse sentido, o centro na prática é a irmã, em uma interpretação de cair o queixo de Lesley Manville. Cyril coordena a casa e as costureiras com firmeza, aconselha o irmão, e em diversos momentos podemos vê-la colocando-o na linha. E é pra nos deixar isso claro que em pelo menos duas cenas ela olha diretamente pra câmera e bem no olho do espectador em um silêncio que diz com eloquência quem é que manda ali, o que já sabemos desde o começo da projeção. É ela quem vai decidir se Alma deve ou não fazer parte da vida do estilista e qual será seu papel na casa, o que vai gerar boa parte dos conflitos do filme. Os três formam um triângulo de relações em que Alma é como uma agulha que tenta perfurar um tecido espesso e encontra um dedal do outro lado. Toda vez que ela consegue encontrar uma brecha de vulnerabilidade em Reynolds, precisa lidar com as intervenções de Cyril.

Mas, quando falo em conflitos, não é no sentido que pode parecer. Nesta que talvez seja a história mais minimalista de Paul Thomas Anderson, não há grandes provações no caminho de ninguém. Sim, Alma precisa lidar com o temperamento de Woodcock e o controle exercido por Cyril, mas esses dois aspectos perpassam o filme todo e tudo deriva deles. Tudo o que pode ser chamado de conflito se dá em um nível bastante mundano, contradizendo qualquer suposição de que o sucesso do estilista torne sua vida extraordinária ou glamorosa. O resultado é um andamento paciente, quase contemplativo, que talvez reflita um pouco demais a morosidade do dia a dia da casa de Woodcock, mas que, por outro lado, não torna chato o filme em si, já que a estrutura investe em muitos saltos no tempo que aceleram o andamento da história.

O roteiro se vale muito das entrelinhas, de tudo o que não é mostrado ou falado. Os diálogos inspirados dizem mais do que as palavras que ouvimos, e a história é pontuada por gestos simples que se repetem ao longo do filme e vão ficando carregados de sentido. Por exemplo, o modo como Alma serve as bebidas (erguendo a jarra até o alto pra fazer barulho) começa apenas como um gesto banal e aos poucos vai se tornando representativo de sua relação com Woodcock, mesmo sendo sempre o mesmo gesto. O mesmo pode ser dito da composição que Daniel Day-Lewis emprega em seu personagem. Muito contido e muitas vezes mal se movendo, seus gestos acabam sendo tão ambíguos que ele pode ser vulnerável e ameaçador sem passar por quase nenhuma alteração de postura. Suas costas às vezes curvadas dependem muito do contexto pra ter um sentido.

Em certo momento, Woodcock diz pra Alma que quase qualquer coisa pode ser costurada dentro do forro de uma roupa. Ele mesmo leva na altura do peito algo que ninguém mais sabe que está ali e quando confidencia essa informação com ela também o faz com o espectador. O mesmo acontece com o filme todo. Só sabemos de certos detalhes de certas cenas porque estamos em contato com a intimidade daquelas pessoas. Estamos vendo aquelas vidas se costurando umas às outras como os pedaços de pano que fazem um vestido e sentimos com eles cada pontada de agulha no dedo. Quando contemplamos o vestido pronto, sabemos que dentro do forro está uma trajetória dolorosa, mas nem por isso menos bela.

 

 

 

Lucas Mendes Kater

Tradutor, revisor e redator, ocasionalmente se infiltra no audiovisual pra tirar um troco. Formado em Letras e pós-graduando em Escrita Criativa, com ênfase em ficção pra ver se aprende a mentir. Também diz que é músico, mas só toca uns rock feio, sujo e errado.

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