Vamos falar sobre Darren Aronofsky?

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Um aquariano cineasta muito intenso nas ideias, é o roteirista, diretor e ambientalista Darren Aronofsky. Esse moçoilo que frequentou a universidade de Harvard para estudar cinema e antropologia social, ganhou vários prêmios depois de completar seu filme de tese, Supermarket Sweep. Transformou toda essa sua bagagem e formação em filmes com uma linguagem surrealista, thriller e muitas vezes analisando um aspecto comportamental de determinados perfis sociais por meio das personagens.

Conhecido pela cinematografia sinistra e representação do psicológico humano, Darren é um diretor místico que não se deixa cair em clichês, usando títulos inusitados e melodrama. Estando hoje com 47 anos, 6 filmes no currículo, 1 indicação ao Oscar de Melhor Diretor e com sua marca registrada que utiliza em todos os seus filmes: uma técnica chamada hip hop montage. Essa técnica mostra imagens ou ações com velocidade aumentada, acompanhada de efeitos sonoros, tentando simular alguma ação. Na média, um filme de 100 minutos possui entre 600 e 700 cortes, enquanto, Requiem for a Dream, por exemplo, apresenta mais de 2 mil cortes! É corte que não acaba mais até cansar nossos olhos!

Mesmo o diretor estando inserido no contexto estadunidense de cinema, ele consegue fugir dos padrões hollywoodianos e criar filmes que são no mínimo… diferentes. Vamos relembrar sua filmografia?

Pi ou π  (1998)

Sua estreia como diretor de cinema já começou metendo o pé na porta (ou uma furadeira na cabeça, como você preferir) com o suspense psicológico surrealista: PI. O filme de baixo orçamento, foi financiado uma boa parte por meio de doações de 100 dólares de seus amigos e familiares pois ele prometeu pagar para cada um deles 150 dólares se o filme fosse bem na bilheteria e se não fosse, pelo menos teriam seus nomes nos créditos. Então por fim, produzido com um orçamento de 60 mil dólares, o filme conta a história de um jovem matemático paranoico tentando encontrar um padrão dentro de sua pesquisa.

Com uma mistura de religião, misticismo e o universo matemático apresentando várias referências e teorias, Aronofsky nos mostra o seu estilo que continuaria a vingar nos seus longas seguintes. Além disso, PI tem a pegada surrealista e casou perfeitamente com a fotografia preto-e-branca fortemente granulada do filme dando uma textura incômoda para as imagens.

Após a conclusão, o filme foi vendido para a Artisan Entertainment por 1 milhão e arrecadou mais de 3 milhões de dólares, além de Aronofsky ganhar o Prêmio de Direção no Festival de Cinema de Sundance de 1998 e também um Independent Spirit Awards para a categoria de Melhor Primeiro Roteiro, recebendo aclamação da crítica e acredite se quiser, Pi foi o primeiro filme a ser disponibilizado para download na internet em 1998!

Réquiem Para Um Sonho (2000)

Já em 2000, é lançado seu segundo longa, Requiem for a Dream, um dos mais cultuados em sua filmografia e talvez um dos seus melhores filmes. Com um elenco fodido que conta com Jared Leto, Jennifer Connely, Ellen Burstyn e Marlon Wayans, esse filme recebeu críticas positivas e uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz para Ellen Burstyn; merecido pois sua personagem no filme é incrível. Réquiem Para Um Sonho  é provavelmente um dos filmes mais perturbadores e depressivos de todos os tempos e conta a história de pessoas que se entregam aos seus vícios enquanto vivem em seus mundos ideias, até a realidade invadir e devastar tudo e a todos.

A trilha sonora é marcante, pontual e te deixa cada vez mais tenso no desenrolar, até chegar ao derradeiro final em que você fica em posição fetal após o término da história. O filme obteve críticas positivas, mas teve uma repercussão polêmica também, onde os mais puritanos condenaram a produção devido a uma cena de sexo explícito. Como disse Aronofsky em entrevista:

“Requiem não é sobre heroína ou sobre drogas… A história das personagens Harry-Tyrone-Marion é uma história de heroína muito tradicional. Mas colocando-o lado a lado com a história de Sara, nós repentinamente dizemos, ‘Oh, meu Deus, o que é uma droga? A idéia de que o mesmo monólogo interno passa pela cabeça de uma pessoa quando está tentando parar de tomar drogas, como acontece com os cigarros, como quando eles estão tentando não comer comida para que eles possam perder 20 quilos, foi realmente fascinante para mim. Eu pensei que era uma ideia que nós não tínhamos visto no filme e eu quis trazê-lo acima na tela.”

Aronofsky inovou na técnica de montagem de Requiem, pois além de ter +2 mil cortes, outros recursos ~diferentões~ foram usados em sua edição, por exemplo, as divisões de tela juntamente com close-ups extremamente curtos e a anáfora cinematográfica que consiste na repetição de cenas para dar ênfase na situação, cenas longas, incluindo aquelas com um snorricam acoplado no ator trazendo a sensação de que estamos amarrados à eles e vários time-lapses.

Fonte da Vida  (2006)

Depois de escrever o roteiro do terror Below, Aronofsky começou a produção de seu terceiro filme e pode-se dizer que foi o projeto mais ambicioso do diretor. Esse drama de fantasia e sci-fi tem três linhas do tempo, em que o protagonista interpretado por Hugh Jackman sempre se encontra com a personagem interpretada por Rachel Weisz, podendo ou não estarem juntos em todas essas linhas do tempo. O ponto de ligação entre as narrativas é a Fonte da Vida, ratificando novamente o tema da mortalidade. Esse filme é uma viagem bastante complexa por ser uma jornada espiritual rodeada de elementos religiosos, o que o torna ainda mais enigmático.

The Wrestler  (2008)

O filme mais “normal” da carreira de Aronofsky e ele tinha ideia desse roteiro há mais de uma década antes de realizado e se trata da história de um lutador profissional veterano (interpretado magistralmente por Mickey Rourke), que continua a lutar a fim de recuperar seus dias de glória, enquanto tenta consertar seu relacionamento com a filha (Evan Rachel Wood) e se envolve romântica com uma stripper interpretada por ninguém mais que Marisa MARAVILHOSA Tomei, que recebeu indicação ao Oscar por sua performance no filme. O longa é uma experiência que já vale a pena ser adquirida apenas pela performance dos atores, pois Darren optou por usar uma direção mais sutil, tanto nesse quanto em Cisne Negro, nos quais um estilo de direção menos visceral nos trouxe uma certa delicadeza em histórias tão densas. Aronofsky filmou ambos os trabalhos com paleta de cor suave e estilo granulado, parte desse estilo consiste na colaboração de parceiros frequentes em seus filmes, o diretor de fotografia Matthew Libatique e o editor Andrew Weisblum.

Cisne Negro  (2010)

Na minha humilde opinião, o melhor filme de Darren, um filme que já nasceu clássico. QUE HINO! Assisti 3 FUCKING vezes no cinema e é um daqueles filmes que a cada assistida você percebe novas coisas e é possível retirar uma nova interpretação, fazer novas observações, te deixar mais em dúvida do que antes e criar mais reflexões.

Com um desempenho fenomenal de Natalie Portman, o filme traz a história da bailarina Nina, que após se tornar a bailarina principal da companhia, deve estrelar a apresentação de abertura: O Lago dos Cisnes. Mas para isso, ela deve ser capaz de interpretar o Cisne Negro e o Cisne Branco com extrema perfeição. O problema é que Nina é a personificação do Cisne Branco e não consegue interpretar o Cisne Negro. Para ela alcançar essa interpretação, ela começa a conhecer seu lado mais sombrio devido a outra dançarina da companhia, Lily (Mila Kunis), na qual é capaz de interpretar o Cisne Negro com perfeição. Através disso, Nina acabará causando um conflito de personalidade em sua mente para alcançar a tão sonhada perfeição. 4

Com 5 indicações ao Oscar e apenas uma vitória, Melhor Atriz, Cisne Negro é definitivamente um filme que pode ser analisado sobre a ótica de um prisma, em que ele pode ser interpretado como uma metáfora para alcançar a perfeição artística ou pode ser interpretado como o nascimento de um artista. Além de outras diversas interpretações que todos tiram do filme. Assim como em Pi e Réquiem Para Um Sonho, temos a trilha sonora maravilhosa de Clint Mansell, o filme não se esgota com o excesso de Tchaikovsky tocado, pelo contrário, só tende a ganhar. Repleto de simbolismo, temos aqui um filme de terror psicológico que ainda será muito cultuado no futuro.

Noé  (2014)

Em seu penúltimo filme lançado, Aronofsky decidiu fazer uma adaptação livremente baseada no livro Gênesis da Bíblia, sobre a história do Grande Dilúvio. E assim nasceu Noah (ou Noé), o filme mais rentável a carreira do diretor. É possível ver a linguagem surrealista do diretor até nesse que é uma adaptação bíblica, a forma como ele nos mostra Noé tendo suas visões e sonhos é muito bem executada e criativa. Mas acredito que seja unânime que esse é o pior filme da carreira de Darren, gerando diversas controvérsias quando foi lançado, desde o texto da adaptação até questão racial.

Um ponto positivo é que Aronofsky não usou animais vivos para fazer o filme, dizendo em um vídeo do PETA que “realmente não há mais razões para fazê-lo porque a tecnologia chegou”, Darren é conhecido por seu ativismo ambiental e A Socidade Humana dos Estados Unidos deu-lhe o prêmio inaugural Humane Filmmaker em reconhecimento ao uso de animais gerados por computador. O diretor afirmou que usou o filme para passar uma forte mensagem ambiental e estimular mais pessoas a lutar contra as mudanças climáticas.

mãe! (2017)

Seu último filme lançado recentemente, mãe!, no qual a Academia do Sofá teve privilégio de participar de um bate papo com o cara, é estrelado por Jennifer Lawrence, Javier Bardem, Michelle Pfeiffer, Domhnall MARAVILHOSO Gleeson, Ed Harris e Kristen Wiig.

Esse elenco poderoso vem para compor a história de um casal, cuja a relação é colocada em risco quando pessoas não convidadas chegam à casa, interrompendo essa união, até então, estável. Confira a nossa análise completa do filme clicando aqui, pois é talvez um de seus trabalhos mais loucos e intensos!

Por fim, deu para perceber que Darren Aronofsky é um diretor que gosta de inserir metáforas, simbolismos e pequenos detalhes que fazem nossas mentes explodirem por seus filmes. Um lutador que viveu apenas suas lutas. Um matemático que tenta encontrar o número que explique todas as coisas do mundo. Um grupo de jovens que abusa das drogas e de seus ideais. Uma bailarina perfeccionista. Uma releitura da bíblia. Através desses personagens e dessas histórias o diretor traça caminhos diferentes que conseguem falar sobre situações com as quais qualquer um pode se identificar (intimismo e exageros à parte), trazendo efeitos de câmera e enquadramento que reforçam a dramaticidade e intensidade de roteiro. Atmosfera sombria e terror psicológico. Trilha sonora envolvente e enigmática. Seus filmes mostram o ser humano sendo levado ao limite, seja por excessos ou obsessões, com cenas que dão show de criatividade! Dessa forma, Aronofsky consegue fazer um bom uso dos recursos audiovisuais ao seu dispor, surpreendendo o público de forma densa e impactante.

Jessica Crusco
Colaborador | | Também do autor.

Jessica Crusco é formada em RTV, pós graduada em cinema, mestra em bad vibes e doutora em problematizar. Frustrada por saber que não irá conseguir assistir todos os filmes de sua lista de 'quero ver' antes de morrer.

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