Vamos falar sobre La La Land?

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(Academia do Sofá adverte: este post contém possíveis SPOILERS)

“La La Land” é um filme que homenageia Hollywood e os musicais, como uma bela obra que impressiona com sua forma inocente e despretensiosa de contar uma história por meio de várias canções. Que tal vir com a gente e saber mais sobre o  seu conteúdo e a forma que o diretor Damien Chazelle quis passar sua mensagem? 🙂

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OVERTURE

Com “Whiplash: Em Busca da Perfeição” Damien Chazelle observou e contou uma história sobre empenho, talento e a crueldade humana e do mundo da música através de uma personificação quase Nazista por parte de J.K. Simons. O diretor trouxe foco em música e contação de história com a habilidade de quem sabe o que quer e como o quer em uma montagem fluida e uma construção de personagem internamente exaustiva. No entanto, aqui em “La La Land: Cantando Estações”, o artista utiliza de sua mais profunda paixão para dar significados poéticos, leves, inclusive mais romantizados a vida, ainda que com um pé na realidade, inspirando-se nos clássicos para trazer à tela uma homenagem e carta de amor para a Hollywood dos anos 40 e 50 com estética atual e temas atemporais para aqueles que buscam seus sonhos.

L.A.

Chazelle constrói aqui o ambiente com a técnica de quem conhece suas locações. A câmera flexível e observadora permite que aqueles que fazem de Los Angeles o que ela é se expressem e vivam a jornada até o sonho que tanto buscaram, mas não ao ponto de não envolver o espectador nesta. Existe todo um trabalho visível no cuidado com que os cenários são retratados que vão de toques luminosos coloridos até a adição de postes de luz que trazem sofisticação e um ar etéreo às ruas. As palmeiras também são focadas em momentos pelo diretor, assim como cinemas e as pinturas pela cidade de artistas famosos circundam Emma Stone e Ryan Gosling como meros observadores.

E de Griffith Park até o Planetário, a poetização inserida na narrativa ajuda a dar credibilidade aos números musicais que tomam conta das cenas com uma simplicidade cativante. Existe uma linha entre o real e o imaginário que é manuseada com perfeição para que quando a ludicidade tomar conta do show, não exista um estranhamento na transição. Transição esta que é valorizada pelos números musicais simples, que dão para “La La Land” uma sensação de realidade possível dentro da vida de suas personagens. São coreografias baseadas em movimentos simples e danças tradicionais que poderiam ser executadas com facilidade por pessoas reais.

MÚSICA E SONHO

Existem toques visuais adicionados à cena que mostram como Chazelle conhece seus personagens e se empenhou para fazer um musical contemporâneo. São momentos em que Sebastian começa a tocar o piano ou Mia a cantarolar em frente ao espelho, em que a luz diminui, como se o exterior estivesse ausente nessas cenas de contemplação interna por meio da melodia. Uma vez mais, a música é um veículo para contar a história junto da dança, mas o foco é mantido em sentimentos. Com o uso de longos planos para deslizar por um apartamento, onde um grupo de amigas se diverte ao tentar convencer uma a sair ou em um congestionamento, onde a juventude sonhadora se une para transformar sonhos em realidade nem que por três minutos, o diretor permite que o público absorva bem o ambiente e características, sem se basear em múltiplos cortes para criar ritmo. É mais uma forma que Chazelle encontra para fazer sua homenagem aos clássicos.

A delicadeza com que Justin Hurwitz encarou este desafio de compor um musical original é o que transporta de fato quem assiste ao filme, ou somente ouve a trilha sonora, para um novo mundo. Sem dúvida “Cantando Estações” é um projeto sobre talento, amor, sonhos e força de vontade dentro e fora da tela.

CINEMASCOPE – VISUAL E COR

A experiência cinematográfica que um consegue atingir aqui através de vestuário e decoração também mostra o amadurecimento e transformação dos jovens que entram na jornada para os que saem dela, com inspirações em “Os Guarda-Chuvas do Amor”, “Sinfonia de Paris” e “Cantando na Chuva”.

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No início pode-se reparar a ostentação de cores fortes, vibrantes e chamativas que colaboram para criar uma atmosfera de felicidade e ao mesmo tempo inocência. Mas com o tempo, a necessidade de se expressar tanto vai se esvaindo, conforme a personagem de Emma Stone se torna mais sofisticada e o quarto antes habitado por imagens coloridas e almofadas dá lugar a salas em branco destinadas ao trabalho de se reinventar. Já Sebastian começa em um apartamento repleto de caixas, inseguro para se acomodar, e enquanto conquista suas vitórias a música se torna o mais importante e o pianista se encontra acomodado em casa e livre dentro de seu próprio clube.

ROMANTIZAR A VIDA

Onde “La La Land” realmente encontra sua vida é na forma como retrata uma vida que começa na vontade, viaja pela jornada e termina em sua tão sonhada conquista, mas com uma visão de realidade que se distorce. Os protagonistas entram lentamente em contato com o mundo real ao saírem de suas bolhas, levando suas vidas em direções opostas, mas onde não haveria outra maneira de atingir seus objetivos. Damien Chazelle chega a brincar com a possibilidade de um final lúdico e perfeito, mostrando em uma montagem os diferentes caminhos possíveis para que o amor sobrevivesse, mas termina de certa forma educando seu público, dando novas cores para enxergar a vida e filmes e cumprindo a missão inicial que buscava para suas estrelas, o sucesso. O amor foi apenas algo que surgiu pelo caminho.

(Leia também a nossa crítica do filme: La La Land – Cantando Estações)

Vinícius Soares
Colaborador | Também do autor.

Cinéfilo desde que descobriu o que significava cinema e o valor da Sétima Arte, viciado em séries em um nível saudável, desenha ocasionalmente e escreve mais do que come. Sonha em ser roteirista e jornalista e com certeza deseja ser um pouco mais alto

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