“Vende-se Esta Casa” podia ser interessante, mas é só preguiçoso.

 

Quando dei o play, achei que estava assistindo mais um episódio de 13 Reasons Why. Primeiro take e a cara do lindinho do Dylan Minnette estava estampada na tela. (Notei que o machucado na testa dele tinha sarado completamente, sem cicatrizes!). Bom, mas vamos lá falar de Vende-se Esta Casa (Open House título original).

Tudo começa com Logan Wallace (Dylan Minnette) um adolescente que sonha em ir para as Olimpíadas e que conta bastante com o apoio do pai (Aaron Abrams) para isso, uma noite comum saem para comprar leite e ovos e de maneira fatídica o pai é atropelado e morto por um motorista que teve um AVC (Acidente Vascular Cerebral) ao volante. Logan assiste toda a cena. Agora com a família falida e sem o pai a situação fica ainda pior. A mãe (Piercey Dalton) recebe auxílio da irmã para morar em sua casa nas montanhas, apenas com o detalhe que a casa está venda. Naomi e Logan se instalam na nova casa e como a mesma esta à venda, ela fica aberta para visitações e nos dias das visitas os dois precisam sair da casa para que os interessados em comprá-la possam conhecer a residência sem incômodos. Após algumas visitas e o retorno a casa, os dois percebem que coisas estranhas começam a acontecer…

É dado início ao tão esperado suspense e foi pra isso que viemos ate aqui, mas para que isso aconteça é preciso existir um arco para se criar a atmosfera de um filme. Em poucos minutos, vemos um filho, uma mãe que tem preocupações com contas e um pai. Depois, acontece o acidente com a morte do membro da família e vemos mãe e filho tentando se recuperar. O primeiro passo foi cumprido de maneira mediana. Chamo todo esse bloco de mediano pelo fato de não ter criado curiosidade e afinidade por essa família. O roteiro não apresenta os objetivos desses personagens e nem quem eles são.

A segunda parte começa o surgimento do arco onde os protagonistas estão em um ambiente totalmente novo, passam por situações novas de desconforto com os vizinhos e dos acontecimentos estranhos na casa. Na formação desse arco de tensão que tudo deve começar a acontecer e envolver. Isso não me aconteceu e pior, fiquei com a sensação de que o filme começa a se perder na sua linha tênue de pouquíssimos objetivos. Todas as cenas começam a ser apenas depositadas sem uma construção gradativa do enredo, o que é uma pena, pois o próprio título já tem uma ótima premissa e nos instiga a assistir tudo. O fato da casa estar à venda cria uma expectativa que tudo que vai acontecer ali é devido a esse fator, isso justificaria o modo como as personagens agem, por exemplo.

São incógnitas que infelizmente e de maneira preguiçosa não são construídas pelo roteiro. Os sustos são costurados pela edição de modo cauteloso, que não ajudam a construir o arco da tensão. Devido a tudo isso o filme se torna lento, demora a engatar no ritmo suspense e quando engata da uns trancos de sustos, mas depois demora de novo pra voltar a tentar ganhar velocidade.

Desculpem-me roteiristas (Matt Angel e Suzanne Coote), mas o roteiro é fraco e preguiçoso, notamos poucas falas e as que existem são clichês e vazias. O filme deixa pontas soltas, com começo, metade de uma explicação do meio e sem final. Bem confuso mesmo. Algumas vezes questiona nossa inteligência. Uma das cenas, onde Logan tenta ligar pra emergência, mas encontra os dois celulares sem o cartão SIM com o insert do celular dizendo que não pode realizar ligações e dessa forma não faz nada, mas espera! LIGAÇÕES DE EMERGÊNCIA PODEM SER FEITAS SIM, MESMO SEM CARTÃO SIM!

 

Apesar de um roteiro meio falho, o filme também tem suas coisas boas, como a fotografia com planos onde a câmera dá impressão que você está sendo observado o tempo todo, algo bem clichê dos filmes de suspense de home invasion, mas que passa essa sensação de estar junto da personagem e a gente adora porque é isso que dá bastante agonia junto de uma boa trilha sonora que não deve faltar em filmes de suspense. Afinal, diga-se de passagem, a grande estrela de um filme de suspense/terror é a sonoplastia e a trilha de Vende-se esta Casa estava presente. A ambientação também é muito bonita, decoração digna de uma casa da montanha além de imagens externas lindas. Um pouco do foco é dado ao porão, um lugar sem iluminação aonde você vai seguindo os passos da personagem desbravando o local com sua lanterna onde a cada curva e a cada direção, a câmera te joga e você se segura por achar que tem algo ali. (Algo inovador seria um porão com luz e visitação a luz do dia, fica a dica!)

A relação e criação das personagens fazem toda a diferença em uma produção, são importantíssimas mesmo que de maneira implícita, porque esse trabalho de relação e construção é notada e captada pela câmera. São relações e construções que fazem tudo ganhe sabor. São os atores que nos transportam para a realidade do filme, se o roteiro é ruim, se a direção é desatenta fica difícil até mesmo para ótimos atores. O trabalho do ator deve ter um cuidado especial, sim. E esse elenco fez o que estava ao seu alcance. Agora quanto ao menino Dylan, sua personagem começa de maneira passiva e termina passiva, não há uma evolução. Isso o deixa desinteressante.

Acredito que o ator é atraído para personagens que são lentos e passivos as circunstâncias que vivem, mas tenho fé (no Pai!) que ele ainda será desafiado por algum diretor a quebrar essa barreira de ser sempre o mesmo em suas atuações. Dedinhos cruzados por você Dylan.

O desenvolvimento do filme num todo deve se levar em consideração e se um filme tem um processo interessante que te transporta ao longo das cenas para um lugar diferente de onde você começou, ele já tem seus méritos, mesmo que o final não seja o grand finale. No caso de Vende-se Esta Casa não tem muito como defender. Um final tão preguiçoso quanto todo o resto do roteiro.

Quando sentamos na frente de uma tv ou da tela do cinema não queremos um filme mastigado que nos conte tudo, mas precisamos de um roteiro que não deixe tantos buracos, como foi o caso desse. Somos hoje, espectadores pensantes que tem a capacidade de argumentar aquilo que é apresentado ao invés de só engolir. Gostamos de desafios. Ate mesmo um filme que não precise pensar muito para aqueles dias de preguiça mental, precisa-se de roteiros interessantes e bem desenhados com começo, meio e fim.

Vende-se Esta Casa tinha tudo para ser interessante, ele cumpre com o suspense em algumas partes (ALGUMAS). Não digo que os problemas foram por falta de orçamento (o filme teve 100mil para ser produzido), mas creio que por falta de amor.  Apedrejam-me. Diria que Vende-se Esta Casa é um miscelânea de clichês de filme de suspense com um roteiro fraco e sem sentido (Sentido aqui de direção mesmo, não saber para onde vai e qualquer caminho serviu para desenvolver esse longa). A Netflix tem se testado em produções originais e tem tido acertos (La Casa de Papel), mas também erros, super aceitável.

 

Fernanda Degolin

Atriz apaixonada pelos palcos e pelas lentes das câmeras. Sommelier de pipoca e degustadora de peças de teatro, filmes e séries.

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